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Correio da Manhã

Opinião
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Francisco Moita Flores

Vergonha e grandeza

Começo com uma citação: ‘Chegou o momento de trabalhar arduamente, o momento de olharmos para o futuro, o tempo de caminharmos juntos para sairmos da pobreza e do sofrimento que destrói as nossas vidas’.

Francisco Moita Flores 20 de Maio de 2012 às 01:00

Ouvi-a, emocionado, da boca do novo Presidente da República de Timor Leste, Taur Matan Ruak. Timor é um dos símbolos maiores da nossa vergonha e da nossa grandeza. De como somos capazes das maiores vulgaridades e desleixos e dos maiores feitos e capacidade de dádiva.

Timor, dez anos depois da independência, empossando o seu terceiro Presidente da República eleito, continua desfeito pelos anos da guerra, opressão, pobreza, Estado frágil, dependendo da ajuda externa e da solidariedade para sobreviver, mas dos seus dirigentes nunca ouvimos outras palavras, quando falam para o mundo e chegam até aqui, que não incorporem esta ideia de esperança. Nós abandonámos Timor. Desprezámos este pedaço da nossa memória colectiva, estivemos prontos para esquecer a brutalidade da ditadura indonésia, fizemos com que desaparecesse da agenda política e diplomática, esperando que o tempo resolvesse aquilo que as armas dos ocupantes tinham conseguido pela violência: a integração daquele minúsculo território que fala português numa das maiores potências do Sudeste Asiático. Fomos cobardes, refundámos a lavagem de mãos de Pôncio Pilatos, assobiámos para o lado quando, nas montanhas, Timor resistia.

Chorámos de vergonha quando o massacre do cemitério de Santa Cruz nos obrigou a regressarmos à consciência da honra, solidariedade e dever e conseguimos transcender-nos no combate que então se travou, um pouco por todo o mundo, e quem ainda se recorda desses dias de rebelião desperta, que mobilizou Portugal de norte a sul, ao som da cantiga do Luís Represas, juntos, apenas com o sofrimento desse povo no coração. Aí fomos maiores do que o desleixo e vulgaridade a que habitualmente nos dedicamos.

A ONU assumiu o clamor, a diplomacia foi ganha para a causa dos oprimidos e a arrogante ditadura foi obrigada a ceder. Timor era livre e pertencia aos seus. Agora, as palavras do emocionado presidente eleito acenam com o mesmo combate. Contra a pobreza e a pequenez da política. A mesma tenacidade de sempre. A mesma lição sobre a esperança. Para que os mais esquecidos se recordem que somos capazes de ser muito maiores do que os nossos lamentos.

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