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Correio da Manhã

Opinião
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28 de Abril de 2007 às 00:00
Lêem-se as escutas reproduzidas no CM, conhece-se a forma de agir de alguns protagonistas do futebol e aquilo que mais espanta é a indiferença, o laxismo, o deixa-andar, o silêncio, o conformismo – a começar no Governo, nos mais altos quadros da classe política nacional, passando por largos sectores da ‘intelectualidade’ portuguesa e acabando em largas franjas da comunicação social e no cidadão comum.
É óbvio que a investigação é um conjunto de rostos, assim como os tribunais. A opinião pública não pode tomar-lhes o lugar, mas deveria ser actuante e desempenhar um papel vital no sentido de obrigar as instituições a funcionar.
As pessoas até já acham graça. Porque provavelmente a única coisa séria que julgam poder fazer é humor. E rirem-se com ele.
A corrupção tornou-se num fenómeno tão badalado e permanentemente negado que a sociedade já não reage perante o bloqueio. Um facto que levanta uma questão crucial: a corrupção é uma inevitabilidade? Lutar contra ela não passa de uma mera figura de retórica? Alguém se sente incentivado a bater-se contra esse ‘cancro’ dizimador da ética das sociedades modernas?
É o País que se alimenta da corrupção ou é a corrupção que se alimenta do País?
O Estado está verdadeiramente interessado em revelar e denunciar as fórmulas de financiamento dos partidos políticos? Os podres do futebol não estarão, afinal, associados e articulados com todos os outros podres que encontramos no tecido sociopolítico e económico do País?
É como a história do ovo e da galinha: a corrupção ‘apareceu’ primeiro na política ou no futebol? Não são, afinal, os seus vasos comunicantes que vão deixando tudo como dantes, porque a bebericagem é feita exactamente do mesmo sangue?
Tenho muitas dúvidas de que os portugueses estejam preocupados com o nível de corrupção que grassa no País. Porque acham que não vale a pena a preocupação. Porque acham que a máquina do Estado, ela própria, fomenta a corrupção em vez de combatê-la. Porque está instalada a ideia de que o crime compensa. Porque está criada a sensação de que ninguém é capaz de fazer alguma coisa para mudar este clima de promiscuidade. E de impunidade. E quem se trama é sempre o mais fraco e o mais pobre. E pior ainda: o mais sério.
Os Governos deveriam preocupar-se indiscutivelmente com os incentivos à produtividade mas também com os incentivos à seriedade. Este País está atolado numa lógica de favores e compadrios, de lóbis que abatem outros lóbis, cuja situação até enobrece a posição de Pina Moura que, em vez de fingir e dissimular como os outros, ao menos teve a sinceridade de confessar que a sua entrada nos quadros da Media Capital continham uma indiscutível componente político-ideológica. Isto é: estamos fartos de saber que todos os governos, entre as suas acrobacias em defesa do cumprimento das normas europeias, coçam a cabeça e suam as estopinhas no sentido de encontrar a melhor solução para controlar os órgãos de comunicação social.
As escutas. Mas há alguma dúvida sobre a manipulação das classificações dos árbitros? Há alguma dúvida da viciação de resultados? Ninguém tem dúvidas. Mas o mais espantoso é que, no futebol, em vez de haver uma mobilização geral para extrair as ervas daninhas, os adeptos dos clubes estão preocupados em perder poder, influências e aqueles que são capazes de potenciar (em resultados e troféus) essas influências. E há os outros que querem ganhar poder exactamente através das mesmas fórmulas. Gastas e usadas mas incompreensivelmente aplaudidas. O contraciclo.
O ‘Apito Dourado’ está transformado numa novela de comadres. O que pesa mais: o(s) livro(s) de Pinto da Costa ou o livro de Carolina Salgado? O ‘Apito Dourado’ fabricou duas ‘claques’. A verdade fica arredada, quando o importante parece ser o apuramento de quem financiou a ‘obra’ de Carolina ou a compreensão sociológica da transformação de uma alternadeira em ‘escritora’. Essa coisa de se ter ‘comprado’ árbitros e classificações é uma minudência que não interessa para nada, quando o fio de novelo já está transformado numa bola de folclore. É óbvio que Maria José Morgado vai separar o trigo do joio e o essencial (da investigação) do acessório. Mas antes de se saber o que vai acontecer depois do ‘Apito Dourado’ é preciso que não fique nem um rasto de impunidade nem a convicção de que, pelo desgaste, as investigações vão parar. Não podem parar. Porque, no presente (!), continuam a acontecer muitas coisas estranhas, difíceis de explicar!
Nota – Pina Moura não sabe nada de comunicação social, não vê a TVI, mas acha-se capaz de ‘gerir’ a Media Capital. Aliás, os ‘gestores políticos’ podem gerir qualquer coisa. Olé!
Nota 1 – Cavaco Silva tem a noção de que a classe política anda a jogar em vários campos sem ir aos treinos. Muito bem mostrado o cartão amarelo...
Nota 2 – Os críticos ‘laranjas’ de Marques Mendes olham-se ao espelho e acham-se fenomenais. José Sócrates agradece a tendência para este umbiguismo-iluminista.
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