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Correio da Manhã

Opinião
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Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Armando Esteves Pereira

Viver acima das possibilidades

O endividamento das famílias portuguesas já ultrapassa os 101,6 mil milhões de euros. Por sua vez, o Estado já deve mais de 105 mil milhões. Isto significa que só o Estado e as famílias somam um passivo que ultrapassa em mais de 50 mil milhões de euros a riqueza gerada em Portugal durante um ano.

Armando Esteves Pereira(armandoestevespereira@cmjornal.pt) 28 de Maio de 2006 às 00:00
Nos 30 países mais desenvolvidos do Mundo, Portugal é o o que tem um dos maiores desequilíbrios externos. Como a poupança é insuficiente, os bancos têm de ir lá fora buscar dinheiro para emprestar. Os portugueses vivem agora em melhores casas, têm acesso a mais bens de consumo, têm carro, tudo graças ao crédito. Mas não produzem, nem poupam para ter isso. Os consumidores têm um nível de vida acima das suas possibilidades e, se o quadro não muda, um dia poderá haver um grave choque de ajustamento entre a realidade de uma economia estagnada, pouco produtiva e pouco competitiva e a quimera dos sonhos que as famílias construíram com a ilusão do crédito fácil e barato.
O Banco Central Europeu, liderado por Jean-Claude Trichet, deverá aumentar este ano os juros e não será surpreendente que no final do ano o valor da principal taxa directora do BCE esteja nos 3%, contra os 2,5% actuais. Nem subidas de um ponto percentual no prazo de um ano serão de afastar por causa das pressões inflacionistas que estão a atacar a Zona Euro.
O reflexo automático da subida de um ponto percentual nas taxas de juro significa um encargo extra de mais de mil milhões de euros no orçamento das famílias portuguesas e um valor ligeiramente mais elevado da despesa com os juros da dívida pública. Para as famílias, significa um maior aperto orçamental, com subidas nas prestações mensais à Banca superiores aos acréscimos dos salários. Para o Estado, representa maior pressão sobre os cofres públicos e maiores dificuldades para o ministro das Finanças controlar as finanças públicas.
AVALIAÇÃO ANEDÓTICA
No congresso dos quadros da Administração Pública que decorreu esta semana em Lisboa, um académico apresentou um estudo interessante que prova que a avaliação do desempenho da Administração Pública é uma medida muito bem intencionada mas que está a ser mal e injustamente aplicada. Como notou Rui Cunha Marques na avaliação da Administração Pública, os dirigentes têm, por norma, classificações superiores às dos seus subordinados. Alguém acredita no valor de uma avaliação que dá estes resultados? Antes pelo contrário. O grande problema da Administração Pública é a pouca qualidade e a falta de liderança dos dirigentes.
O gestor mais admirado do Mundo, Jack Welch, esteve em Lisboa e disse que “é humilhante para os portugueses a percepção que do exterior se tem de Portugal como um país em contínua degradação e declínio ao longo dos últimos anos”. A verdade também pode ser cruel.
Medina Carreira tem feito um hercúleo esforço pedagógico para alertar para as irresponsabilidades do Estado. Há quem o chame de pessimista, mas as contas têm-lhe dado razão. O ex-ministro das Finanças recomenda que o Estado corte por ano dez mil milhões de euros para o País evitar a insolvência em 2015.
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