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Correio da Manhã

Opinião
5 de Julho de 2004 às 00:10
Sinto-me desasado como quando volto de férias de um ‘resort’ com ‘jacuzzi’ na varanda e regresso a Benfica com carros no passeio. E, agora, como vai ser o resto da minha vida? Como regressar ao gesto pobre de mandar parar um autocarro, quando estou habituado a pôr-me aos saltos, acenos frenéticos e gritos quando passa O AUTOCARRO? E o Tejo, sem ser rasgado por espuma e por bandeiras, não me vai parecer triste? Agora é que percebo por que razão os nobres não queriam a República. É tão bom o Mundo, ou pelo menos a Europa, visto cá de cima.
Não estou preparado para aguentar todo um noticiário da ‘Sky News’ sem uma única imagem do Rossio. Abrir o ‘Libération’ e o ‘Repubblica’ e não aprender que os portugueses, depois do almoço, se dedicam ao seu desporto preferido: bebericar um cálice de Porto. Onde é que eu vou agora saber como somos, para onde vamos e o que bebericamos?
Como é que eu reconheço que sou bem-vindo no café que frequento, se ele não tem na montra as cores por que torço? Como confiar num empregado de mesa que não pinta a cara? Se, hoje, segunda-feira, ousar buzinar “tu-tu-tutu-tututu-tutu”, por que suspeito que os outros condutores me vão olhar como se fosse um despropósito?
Como é possível suportar a Espanha sem ver nela uma pontinha de despeito? Como imaginar inquéritos no ‘El Mundo’ sem que uma provável resposta para “quien ganará?” seja Portugal?
Já sei, soube sempre, que o meu plano-reforma é miserável comparado com o de um jornalista francês. Sempre aguentei isso como uma inevitabilidade. Mas desde que sei, de há um mês para cá, que a pré-reforma do Figo foi muito melhor preparada que a do Zidane, como reassumir a minha triste condição?
Esse, o meu drama. Calculem, então, o que é com as mulheres do meu país, agora que não vão ter de responder sobre quem acham que vai marcar! Elas, que estiveram à beira de perceber o que é um fora-de-jogo, de novo remetidas a saberes menores. Ei-las, de novo, com o dilema sobre o que vai com esta saia, depois das certezas recentes (se é verde, a blusa será vermelha, se é vermelha, verde; se nem é verde nem vermelha, muda-se, não há que enganar).
Como aguentar as semanas que restam até Agosto? Depois, as férias talvez me ajudem a regressar ao normal. As ilhas Phi-Phi e os tailandeses simpáticos me dirão que este mês de vacas gordas não foi em vão. Os diálogos serão mais ricos que das outras vezes. Antes, era: “O que sou? Português”. E eles: “Português? Figo.” Agora, eu direi: “Sou português. Figo.” E eles: “Figo. Miguel.” E eu dizendo que sim com a cabeça. E eles: “Maniche. Ricardo. Deco”. Dar novos nomes ao Mundo é o nosso destino.
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