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Correio da Manhã

Opinião
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28 de Setembro de 2003 às 00:00
1.As pessoas esquecem-se mas há muito tempo que começou a corrida às eleições para a presidência do Benfica. Quase há tanto tempo quanto o tempo que passou desde que um grupo de sócios 'de muito peso' viabilizou a eleição de Manuel Vilarinho, que em 27 de Outubro de 2000 arrancou 159 331 votos (62%) aos associados benfiquistas, destronando Vale e Azevedo (38%). Digo isto por duas ordens de razão. Em primeiro lugar porque bastou Filipe Vieira começar a encher (meados de 2001) para Vilarinho começar a esvaziar - literalmente como um balão. Em segundo lugar porque, desde então, com alguns confrontos directos pelo meio (ameaças de abandono), foi-se tornando evidente o objectivo de, a prazo, Filipe Vieira 'atacar' a presidência do clube. Ironia das ironias, ou talvez não, é precisamente o actual responsável máximo pela SAD a adiar o anúncio da sua candidatura ao lugar de Vilarinho, depois de tantos quilómetros percorridos em visitas a casas e núcleos do grande clube da águia. E percebe-se porquê: a eliminação da Liga dos Campeões; o empate frente ao Belenenses; a derrota nas Antas; e o empate em Charleroi frente a uma equipa de mínima expressão (La Louviére) obrigaram Vieira a adiar o que, em condições mínimas de 'euforia' - uma vitoriazinha, enfim, com algum significado - já deveria ter sido proclamado, sob a desculpa, anteontem amplificada quase em forma de 'comunicado do Estado', assinado por uma espécie de 'chefe de gabinete', segundo a qual 'as pessoas não sabem, mas, neste momento, o Benfica tem prioridades mil vezes mais relevantes do que o anúncio da minha ou qualquer outra candidatura'. Boa desculpa para quem andava à procura de um bom argumento (primeiro, uma vitória; agora, talvez, algo mais) para se apresentar, impante e fortalecido, a eleições. Por muito que custe aos adeptos encarnados razão tem Pinto da Costa quando diz: "Se um clube presidido por mim em sete jogos oficiais só tivesse ganho um, também não saberia o que havia de inventar".
2. Não espanta, pois, que Vilarinho, no papel de um dos promotores, agradecido, de Vieira à presidência - e agradecido porque, naturalmente, como os outros, o ainda presidente dos 'encarnados' quer sair da Luz inteiro, isto é, ressarcido dos 'investimentos' que realizou – estivesse pior do que uma barata, no final do jogo contra os 'pêssegos' do La Louviére. Aqueles burros não perceberam nada: era preciso ganhar, primeiro porque não se pode empatar com o La Louviére, que é um clube em vias de aparição; segundo, porque já não tinha havido anúncio após a eliminatória com a Lazio; não tinha havido anúncio após o jogo com o Belenenses; não tinha havido anúncio após o jogo nas Antas; uf, chiça (!) que é demais - vencer o La Louviére em Charleroi era o limite máximo para, em condições desportivas normais, se lançar uma candidatura com um sorriso nos lábios. Burros, burros, burros!
3. Esquece-se Vilarinho, todavia, das suas próprias asnices. Ele sabe que a sua eleição dependeu muito de algumas personalidades (Silva Gomes chegou a chorar no momento em que foram conhecidos os resultados) que depois foi deixando cair pelo caminho; dependeu de Eusébio e dependeu, sobretudo, da promessa de trazer Jardel para a Luz. Da Turquia, conhecida a vitória de Vilarinho, o ponta-de-lança que depois acabaria por rumar a Alvalade dizia: "Benfica voltará a ser o melhor!" Vilarinho, naturalmente sob os efeitos do êxito eleitoral, proclamava no 'dia seguinte': "Com este plantel e alguns reforços ainda é possível ser campeão esta época. Quero dar essa grande alegria aos benfiquistas". Jardel insistia: "Vilarinho vai cumprir!"
4. O ainda presidente do Benfica, vindo do céu, continua a dizer, recorrentemente, que (com ele) "o clube recuperou a sua credibilidade", mas esquece-se sempre de dizer que (com ele) o Benfica conquistou a pior classificação de sempre da sua história futebolística nacional (6.º lugar).
5. É óbvio que o Benfica tem de resolver o problema com a Euroárea, mas é também óbvio que, na ausência de resultados desportivos e desgastada a lógica da gestão do futebol (entre 2000-2001 e 2003-2004, os encarnados tiveram nos seus plantéis 62 jogadores, dos quais restam 25, tendo saído Marchena, Poborsky, Van Hooijdonk, Meira, Jankauskas, para além de alguns pezudos que nunca deveriam ter envergado a camisola encarnada), Filipe Vieira necessita de criar pelo menos um facto novo. Não exactamente a equipa maravilha IV, ao estilo do Rambo, mas algo que seja suficientemente aliciante em tempo eleitoral. Um problema que, aliás, Jaime Antunes também tem.
6. A solução pode ser Rui Costa. Quem o agarra primeiro? O médio português tem contrato com o Milan, grande clube europeu, que acabou de deixar partir Rivaldo. Mas a chegada de Kaká torna a vida de Rui Costa muito difícil às portas do Euro-2004. Pelo que pode haver, também, num quadro destes, interesse do jogador em reconquistar alguma exposição, perdendo, naturalmente, certas regalias. Rui Costa vai entrar, seguramente, neste período de campanha, como entrou, artificialmente, noutros momentos, em que foi necessário colocar uma cenoura à frente dos narizes benfiquistas, apesar de só poder regressar à competição indígena no final do ano, isto é... dois meses depois das eleições.
7. Entretanto, de asnice em asnice e de zurro em zurro, (mais) um episódio que caracteriza a anarquia do futebol do Benfica: a braçadeira de capitão volta para Simão. Quando as coisas são deixadas ao deus-dará, tudo pode acontecer. Como no Big Brother. Camacho não dá ouvidos a presidentes (olha se isto fosse dito por um 'Zé Maria' cá do burgo) e resolve como quer. De facto, o Benfica tem um líder no banco, precisa de um líder dentro e fora do campo. Tão simples quanto isto. Mas por que razão se pode sair duma noite longa com a braçadeira de capitão e não se pode entrar com ela depois de um atraso infeliz e desconcertante? Alguém está em condições de questionar estas coisas no futebol do Benfica?
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