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Correio da Manhã

Opinião
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Golpe palaciano

A tentativa de extinguir o ‘Ticão’ é um recuo no combate à corrupção.
6 de Maio de 2021 às 00:32

Aproveitando o ruído causado pela decisão do juiz Ivo Rosa no processo Marquês, o Conselho Superior de Magistratura tenta matar um tribunal que nos últimos anos se destacou na luta contra o crime de colarinho branco, o Tribunal Central de Investigação Criminal, conhecido já por ‘Ticão’.

Mas toda a gente sabe que o objetivo desta medida é apenas afastar o juiz Carlos Alexandre, que não tem medo de prender políticos, nem banqueiros, nem qualquer poderoso apanhado nas malhas do crime económico.

Não adianta que o poder político e os principais partidos façam declarações enfáticas no combate à corrupção, quando na prática desmantelam uma estrutura fundamental na luta contra o crime de colarinho branco, por natureza mais complexo e com maiores tentáculos.

Como explicou a procuradora Maria José Morgado nas páginas do CM, as redes criminosas são constituídas por várias pessoas, que cometem vários crimes, em vários locais. E é por isso que é fundamental haver uma instituição como o ‘Ticão’, porque caso contrário em vez de descobrir a floresta do crime, corremos o risco de encontrar apenas, aleatoriamente, uma pequena árvore.

Se queremos uma Justiça que combata o cancro da corrupção, que mata a sociedade e a economia e que tanto nos empobrece, em vez de eliminar o ‘Ticão’, o poder político e judicial devia estar empenhado em reforçar a capacidade deste tribunal.

Paradoxalmente, esta manobra kafkiana contra um magistrado acaba por ser uma grande homenagem à coragem do juiz Carlos Alexandre.

Se os partidos ratificarem no Parlamento a proposta do Conselho Superior de Magistratura participam, num golpe palaciano que torna mais difícil o combate à corrupção. E os partidos serão cúmplices da eliminação de um tribunal, com um argumento escondido ‘ad hominem’.

Já que não conseguem afastar Carlos Alexandre do ‘Ticão’, destroem o ‘Ticão’.

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