António José Seguro fez um discurso de vitória já com algumas chaves importantes para perceber o que será o seu mandato. A ideia de estabilidade é a mais evidente, mas não deve ser entendida como uma remissão para uma postura passiva perante o Governo. Um Presidente tem um poder moderador, que se traduz nas mensagens que pode enviar ao parlamento, desde logo para suprir uma eventual paralisia do Governo em políticas deixadas para trás. Mas também pode, em consonância com esse poder de iniciativa, qualificar a palavra presidencial, muito neutralizada pelo desgaste no segundo mandato de Marcelo. E pode, sobretudo, associá-la a presidências abertas, ou outro tipo de figura que o coloque no coração do País real, que mediatizem fracassos do Governo. Seguro não procura, por feitio, o conflito pelo conflito, ou o protagonismo. Mas não vai ficar refém de uma leitura limitada dos poderes presidenciais. Por isso, ao resultado histórico, que o transformou no político mais votado de sempre, somou, no seu discurso, a legitimidade do povo. “O povo será o meu Norte”, disse, no que parece ser uma evidência, mas não é. Um Presidente que saiba calibrar a palavra e o povo, não apenas em função de selfies, pode ter à mão uma arma poderosa. Sobretudo em tempos de clara transformação do sistema político.
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