Eduardo Dâmaso

Jornalista

A expulsão silenciosa

11 de outubro de 2026 às 00:31
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Por cá, olha-se para a habitação como se fosse apenas uma questão de mercado. Uma equação infinita entre oferta e procura, entre investidores e compradores, entre proprietários e inquilinos, com os Governos resignados com a falta de uma bala de prata para matar o problema. A casa passou a ser só um ativo financeiro, como se não fosse o lugar onde uma família constrói a sua vida, onde um jovem começa a sua autonomia, onde se garante estabilidade e futuro. Na verdade, deixou de ser uma condição de liberdade para se transformar num privilégio. Os números mostram uma realidade difícil de ignorar. Os preços das casas mantêm uma trajetória de subida muito superior aos rendimentos. Em 2025, o índice de preços da habitação registou uma subida anual de 17,6%, com as casas existentes a valorizarem-se ainda mais do que as novas. No arrendamento, a pressão permanece insustentável. O resultado é a expulsão silenciosa. Não é uma expulsão feita por despejos em massa, mas pela aritmética implacável dos rendimentos. Jovens adiam a saída de casa dos pais, famílias gastam uma parte absurda do salário para manter um tecto, trabalhadores vivem a dezenas de quilómetros do emprego. Um dia, também por cá, este sofrimento transformar-se-á em raiva, sobretudo se os partidos teimarem numa política de trincheiras e de cínica impotência. Neste e noutros temas de que se fazem as vidas comuns. E que ontem levaram milhares de pessoas às ruas de Portugal.

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