O que mais impressiona na tragédia venezuelana são os gritos de angústia e desespero, cada vez mais abafados, dos que ficaram debaixo dos escombros e não conseguem sair. Lamentam-se as mortes, naturalmente, mas já não há nada a fazer. Que Deus tenha essas almas em bom descanso. Acode-se aos feridos, em condições extremas, mas hão de sobreviver e ficar para contar a história. O drama maior é mesmo saber que há pessoas a lutar pela vida, sem água, sem alimentos, sem forças, com a morte ali ao lado, e a ajuda tarda ou não tem meios para as resgatar.
Quando a Natureza desperta da forma como o fez, cruel e implacável, recordam-nos como devemos estar preparados e reagir. Ouço com atenção, mas consciente da distância entre a teoria e a prática. Há que ser realista: quando a terra treme como aconteceu na Venezuela, não há nada a fazer. É impossível reagir como nos dizem. O instinto de sobrevivência é mais forte, o raciocínio lógico fica bloqueado, a reação é fugir por onde for possível. Daí que a atenção deve concentrar-se no momento a seguir, na mobilização rápida de equipas de busca e salvamento. E é isto que não se compreende: o tempo que a ajuda internacional leva a chegar ao terreno, porque nenhum país tem capacidade de resposta a uma tragédia desta dimensão. São dias, quando deviam ser horas, e as consequências são as mesmas de sempre: em lugar de se resgatarem vidas, resgatam-se cadáveres.
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