Uma das consequências do discurso de Aguiar-Branco aí está. Ventura estende as mãos aos partidos e grupos de interesses, que querem transparência, sim senhor, mas não muito e desde que a possam utilizar a seu favor. O Chega vai apresentar uma proposta que, a avaliar por Ventura, nem tenta um equilíbrio na ponderação de interesses. Abraça a ostensiva manipulação em curso entre dois conceitos diferentes: a privacidade e a reserva da vida íntima. Foi o que Aguiar-Branco deliberadamente fez, quando foi buscar exemplos caricatos de alegadas obrigações declarativas que não estão em lei nenhuma. Mais: estão a tentar apresentar a exigência de transparência como uma extravagância e todos os que se batem por ela como uns tolinhos. Esquecem, porém, que ela é um alicerce do Estado de direito democrático. E que serve como decisivo instrumento de medição da qualidade das democracias, desde logo aquelas que, como a da Hungria, de Orbán, não reúnem as condições indispensáveis para receber dinheiro europeu. Estamos, pois, nesta fase, em que uma frente alargada da AD, do Chega e de um PS balcanizado se prepara para reforçar os mecanismos de opacidade, bem como para deslegitimar a fiscalização do Estado e da política.
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