A notícia que faz manchete nesta edição tem uma forte carga simbólica sobre o crime económico. Um empresário vai ser julgado por subornar um diretor de obras com uma ‘atenção’ natalícia: 7500 euros em notas deixadas na bagageira do carro. Bagatela penal, dirão alguns. Pura ilusão. O caso mostra como ainda há gente séria, o diretor de obra que denunciou o crime. Mas mostra, sobretudo, um padrão de caciquismo e corrupção atribuível a alguém que está em quase todas as grandes obras públicas. Alguém que se movimenta nas mais altas esferas do poder político, económico e desportivo. Alguém que foi um dos principais fornecedores na obra da casa do primeiro-ministro. Gaspar Borges, da ABB, não é um empreiteiro qualquer. É dono de um dos impérios que mais contratam com o Estado, incluindo a célebre requalificação da linha férrea de Espinho. Perante a justiça responderá mas, no plano político, o mínimo exigível seria que explicasse se as suas empresas funcionam assim em todos os contratos. Se costuma ter por conta elementos de forças policiais que lhe martelem autos, subvertendo a verdade. Se consegue explicar porque tem “incongruências” de 27 milhões de euros no seu património pessoal. A PJ do Porto, o MP do Porto, o juiz Pedro Miguel Vieira, mais uma vez, cumprem muito bem o seu papel. Resta saber se no sistema partidário optam pelo escrutínio, pelo conveniente silêncio ou pela doutrina consagrada: à justiça o que é da justiça.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt