As manifestações que terminam com carga policial, como a que ocorrem em frente à Assembleia da República em dia de greve geral, levam à velha questão do copo meio cheio ou meio vazio. Uns veem excessos de quem protesta - ‘só se perdem as que caíram no chão’; outros entendem que a ação dos agentes foi longe demais - ‘um abuso de autoridade’. A avaliação fica para cada um, mas certamente que ninguém de bom senso concorda que a polícia seja provocada, insultada, atacada com pedras e garrafas. Como também não foi bonito ver bater numa mulher, como aconteceu a uma jovem que estava sentada na calçada, aparentemente na paz do Senhor. Três agentes rodearam-na e convidaram-na a desimpedir o passeio ao toque do bastão. Para quem vem do tempo em que se dizia, e bem, que a uma mulher só se batia com uma flor, incomoda. Por tudo isto, ninguém pode cantar vitória nesta guerra lamentável às portas do poder e que deixou para segundo plano a indignação dos que saíram à rua para contestar o pacote laboral, independentemente da razão que lhes assiste. E este, sim, é o lado mais triste de tudo isto. Ao contrário de quem passa a vida a queixar-se, mas não mexe uma palha; ou dos que acham que a solução passa por desafiar a autoridade do Estado, há muito boa gente que não desiste de lutar pelos seus direitos, de forma ordeira e pacífica, num misto de razão e coração, como aconteceu de norte a sul do País. E essa é a que conta.
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