Uma parte da direita identifica a ‘pose de Estado’ com a “autoridade do Estado”. Adora o cliché. Alguns velhos dinossauros ensinaram a gerações de jotas, como a do autarca do Porto, Pedro Duarte, que essa é a melhor maneira de ser “implacável” na defesa da ordem pública. Os dinossauros não lhes explicaram que essas teorias têm uma raiz histórica na visão do general De Gaulle sobre a necessidade de restaurar, na V República e quase a qualquer preço, um Estado diminuído pelo colaboracionismo nazi. Um Estado que não fosse apenas discursos sobre valores republicanos, mas uma entidade dotada de poder, autoridade e decisão. Fazia sentido na época. Hoje, é mais complexo. Por isso, a noção francesa de ordem pública se confunde tanto com excessos policiais, enleados na radicalidade de extremistas de qualquer bandeira, transformando a violência numa questão só deles, com o resultado conhecido: um país a ferro e fogo e um poder político na condição de débil espectador. No caso do Porto, não se trataria de ser “implacável”, como disse o xerife local, mas sim de preservar intactas as condições de um diálogo democrático. A polícia nunca poderia ter atuado de madrugada, longe das câmaras, sem proporcionalidade, adequação e necessidade. Montenegro também nunca deveria ter mostrado um desprezo incendiário por todos os que, estando ali ou não, sofrem com a falta de um tecto. Deverão pagar caro esta pantomima de gaullismo tardio.
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