O Relatório Síntese do Ministério Público relativo a 2025 espelha alguns factos perturbadores. Revela um aumento expressivo da criminalidade participada e reflete uma cada vez maior falta de meios técnicos e humanos. A primeira dá sempre muito jeito aos populistas, a segunda empurra-se com a barriga. O problema é muitíssimo sério, pela realidade que mostra e pela indiferença que convoca. Alguns exemplos. A violência conjugal ou equiparada registou 33 844 novos inquéritos, mais 31,7% do que no ano anterior. O tráfico de estupefacientes cresceu 36,4%, o branqueamento de capitais aumentou 31,3%. Isto não é mera estatística. São milhares de novos processos que entram todos os anos no sistema, exigindo magistrados, investigadores, funcionários judiciais, peritos, instalações e meios tecnológicos. O debate entre as elites políticas que se indignam com o estado da justiça, porém, é imune a estes dados. Está centrado em meia dúzia de casos mediáticos que escondem a grande evidência. A realidade não está aí, mas em milhares de polícias, funcionários, magistrados, advogados, que atendem diariamente vítimas de violência doméstica ou enfrentam redes de tráfico de droga que se mostram cada vez mais sofisticadas. Quando os inquéritos crescem mais de 30% em áreas críticas a mensagem é simples e incontornável: o sistema pode tornar-se ingerível. Mas será que isso preocupa a nossa classe política? A dúvida é cada vez mais óbvia.
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