Eduardo Dâmaso

Jornalista

Não podemos aceitar

22 de agosto de 2026 às 00:31
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Vigora entre nós uma espécie de anestesia coletiva face à guerra civil da estrada. A brutal violência quotidiana a que assistimos escapa a qualquer escrutínio moral e político. Demasiados condutores transformam a estrada num espaço de afirmação pessoal: velocidade excessiva, ultrapassagens impossíveis, telemóveis na mão, álcool, drogas, desrespeito pelas distâncias de segurança, agressividade perante quem cumpre as regras. Na esfera mediática e na própria sociedade, porém, normalizámos tudo. Um condutor que circula a 180 km é, muitas vezes, descrito como alguém que “gosta de andar depressa”. Há um léxico de complacência que mascara comportamentos potencialmente homicidas. A morte de dois jovens militares na A1, seja qual for a sua causa, ganha, por isso, um significado que ultrapassa a tragédia individual. Eles não morreram apenas porque decidiram ajudar alguém. Morreram porque, nas nossas estradas, até um gesto solidário pode ser mortal. Isso diz muito sobre o ambiente rodoviário que construímos. E isso é qualquer coisa de muito doentio num País que aceita a estrada como uma lotaria diária. Chamamos ‘acidentes’ ao que é o resultado previsível de comportamentos irresponsáveis. Aplicamos a palavra fatalidade para aliviar consciências. Como se a velocidade fosse uma força da natureza. Como se a condução agressiva fosse um fenómeno meteorológico. Como se a imprudência fosse destino. Não é aceitável. 

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