Apanhada pela enxurrada dos Himalaias, uma criança luta para alcançar a margem do rio. Não se sabe como foi ali parar, mas percebe-se o esforço para se manter à superfície, aproveitando o mar de detritos que se formou na água lamacenta. De quando em vez desaparece, mas o instinto de sobrevivência dá-lhe mais uns segundos de vida e o corpo, cansado, volta a emergir. Em terra firme, várias pessoas, de telemóvel na mão, captam o momento, mas nenhuma tenta fazer o que quer que seja para a salvar. O importante é registar o drama, meter o vídeo nas redes sociais e esperar que tenha muitos ‘gostos’ e comentários, para alimentar o ego. Nem sequer lhes passa pela cabeça que poderiam ser elas naquela situação, onde a linha entre a vida e a morte é impercetível.
Há um outro episódio, que também viralizou, como agora se diz, embora menos chocante, mas igualmente perturbador. Num jogo de futebol, uma criança empunha um cartaz onde pede a camisola de um jogador adversário. “Neymar, amo o Corinthians, mas sou seu fã. Me dá sua camisa”. Neymar fez-lhe a vontade, os adeptos do Corinthians não gostaram e partiram para a ameaça e insultos de toda a espécie. Foi necessária a intervenção da polícia para garantir a segurança do miúdo e da família, retirando-a do estádio a muito custo.
Desumano, cruel e intolerante, assim vai o maravilhoso século XXI. Não era isto que imaginávamos.
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