A guerra que Luís Montenegro trava com o Tribunal Constitucional a propósito da divulgação dos clientes da Spinumviva, sendo um direito de qualquer cidadão, não pode deixar de ser vista como um ato político. Nesse sentido, ela é um episódio nefasto. Mostra que Montenegro não preza a transparência democrática e o escrutínio dos atos políticos. Mostra, também, quando sabemos que a sua tentativa de travar o acesso público à lista de clientes, bem como, por consequência, às matrizes dos prédios e contas bancárias, foi já seguida por mais de 30 titulares de cargos políticos, que o primeiro-ministro tenciona fazer escola a favor da mais completa opacidade. Este comportamento encaixa, é certo, naquilo que tem sido a relação dos sucessivos Governos, incluindo os do PS, sobre a transparência. Há décadas que andam a fazer e desfazer estruturas, a mudar leis e a evitar a institucionalização das obrigações declarativas, sobretudo a sua clareza e detalhe. Na atual versão, a Entidade para a Transparência tem tido a necessária coragem de travar esta batalha pela sua própria dignidade e deve ser louvada por isso. Já Montenegro, pelo seu lado, está a criar um insuportável padrão de falta de humildade e de sentido democráticos que deve deixar alguns de face ruborizada no seu Governo. Assim de repente estou a lembrar-me do recém-empossado ministro da Administração Interna, Luís Neves, certamente confrontado com um dilema de valores complexo, nesta matéria.
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