Há uma coisa perturbadora na conversa sobre segurança. A discussão não deve situar-se entre a histeria do Chega e as posições redutoras de quem se conforta com a realidade estatística do RASI. Esta é um importante instrumento de análise e um retrato essencial. Mas não nos iludamos. Não podemos repousar naqueles números quando a criminalidade organizada mantém toda a faixa marítima e litoral entre Málaga, Huelva, a costa algarvia e alentejana sob enorme pressão. Os desembarques diários de drogas em toda a zona de Huelva e Guadalquivir, contaminando o Guadiana, o aumento da violência contra polícias, o crescimento da narcoeconomia em todo o Sul da península, o aumento das lanchas em ação e do uso do território nacional para operações, tudo isso e mais que não cabe aqui, são sinais óbvios de uma criminalidade que cresce como uma mancha de óleo. O debate deve centrar-se no reforço dos meios, na reorganização de polícias e magistraturas, para fazer face a esta realidade, como acontece em França e noutras paragens. Desde logo, no fim da rivalidade entre capelinhas policiais. Deixar que o debate sobre a segurança fique pela histeria do Chega (e de Moedas), pela ilusão estatística, ou seja, alimentado por ideias redentoras como a criminalização da venda de louro prensado, é passar ao lado de uma realidade que pode manifestar-se, a qualquer momento e em qualquer latitude, desfazendo essa beatífica ideia do País de brandos costumes.
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