Quando completou 80 anos, Sebastião Salgado confessou, numa entrevista ao jornal Folha de São Paulo, que não contava aposentar-se. Explicava o mais conceituado dos fotojornalistas brasileiros que “nenhum fotógrafo pára porque é uma forma de vida”. Salgado partiu ontem, aos 81 anos, e deixou-nos um legado ímpar de teor social e humanista. Da seca em África à infâmia dos garimpeiros na serra Pelada, das crianças migrantes aos trabalhadores explorados ou das imagens de um planeta intocável cada vez mais em risco, quase tudo viu a lente de Sebastião Salgado. Tudo isto e os muitos prémios que arrecadou fizeram dele um dos mais importantes fotógrafos de todos os tempos.
Menos conhecidos, mas não menos importantes, são igualmente os
registos feitos por Salgado durante a revolução dos cravos. Fugido à ditadura
brasileira, Salgado, que estava exilado na capital francesa em abril de 1974,
não perdeu a oportunidade de testemunhar a mudança política num país que lhe
era tão próximo. Pegou numa câmara Leica de Leila, a mulher de toda a sua vida
e com Juliano, o filho de três meses, rumou a Lisboa num velho Renault e
fotografou um país a renascer.
Salgado pode ter registado o mundo a preto e branco, mas a sua obra eterna vai lembrar-nos sempre que ver o mundo que nos rodeia apenas a dois tons é profundamente redutor e perigoso.
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