Delfim de Guterres, disse 'não' a Soares

Fundou jornal com primos e “raptou” Manuela Eanes para conseguir entrevista do marido Presidente. Distribuiu preservativos e foi detido em Sevilha.

09 de fevereiro de 2026 às 01:30
De suspensórios vermelhos e t-shirt amarela, fez campanha por Sampaio nas legislativas de 1991, quando foi eleito deputado pela primeira vez Foto: Lusa
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António José Martins Seguro nasceu em Penamacor, a 11 de março de 1962. Tem 63 anos e faz os 64 na semana em que toma posse. Em adolescente, esteve no futebol (um avançado-centro que, dizem, fazia lembrar Nené, do Benfica), no atletismo, na pesca, no teatro. E, com os primos (entre eles Jorge Seguro Sanches), fundou o jornal ‘A Verdade’, que o levou ao “rapto da mulher do Presidente”, em 1982, para conseguir, com sucesso, que este lhe desse uma entrevista.

Quem o descreveu assim foi a própria da ‘vítima’, Manuela Eanes, que convenceu a passar pela redação numa visita oficial, num testemunho sobre Seguro para o livro biográfico ‘Um de Nós’, do jornalista Rui Gomes. Nesse ano, entrou para Gestão de Empresas, no ISCTE. Estava já na JS, não acabou o curso, e, em 1990, os jovens deram-lhe a liderança. Bateu-se contra o serviço militar obrigatório, distribuiu preservativos (na campanha ‘Deixa-me seduzir-te’) e lutou pela causa timorense (na Expo de Sevilha, em 1992, teve a sorte de ser detido por um guarda de Valverde del Fresno, a 30 km de Penamacor, e foi libertado).

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Passou a fazer parte do circulo próximo de Guterres, de quem chamam ‘delfim’, dando-lhe apoio nas internas contra Sampaio e foi por ele chamado para secretário de Estado da Juventude, em 1995. Em 1999, as eleições europeias levaram-no para Bruxelas, de onde voltou, em 2001, para ministro Adjunto num Governo a prazo. Foi líder parlamentar com Ferro Rodrigues e a ascensão de Sócrates isolou-o, até que este caiu, em 2011, e foi eleito secretário-geral.

Venceu autárquicas e europeias, mas Costa acusou-o de ganhar “por poucochinho”, em 2014, e Seguro sabia o que aí vinha. Leia-se o que escreveu Rui Gomes de um telefonema com Soares. “Tinham-lhe dito que o PS se preparava para assinar um acordo [de salvação nacional proposto por Cavaco] com o PSD [de Passos]. Não podia ser, nem sequer era desejável qualquer negociação. Seguro tinha um entendimento diferente de Soares.

Mário Soares enunciou eventuais consequências, caso Seguro divergisse. O líder do PS sentiu que a autonomia da sua capacidade de decisão, sua e da direção do PS, estava ser condicionada (...) e respondeu ‘Não’. (...) Soares reagiu mal à resposta, a chamada terminou rapidamente e ao final do dia o secretário-geral do PS avisou os mais próximos que antecipava uma ‘tempestade’”. Esteve 10 anos fora da política.

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Afastou-se com o poder de Sócrates

Estava à frente da bancada do PS, em fevereiro de 2005, quando José Sócrates venceu as legislativas com maioria absoluta. Um mês depois, Seguro recusou continuar líder parlamentar e perdeu protagonismo. Em muitos dossiês, estava em desacordo com o então secretário-geral. Em 2009, o PS rejeitou as propostas de criminalização do enriquecimento ilícito. Apesar de ter seguido a disciplina partidária, apresentou uma declaração de voto: “Portugal não tem conseguido combater eficazmente a corrupção. (...) É uma questão de regime e todas as vias são necessárias para que ele tenha êxito”, disse.

Maria e António

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Maria (que o abraçou na noite em que perdeu para Costa) e António, ambos na casa dos 20 anos, têm os nomes dos pais. “Preservo muito a privacidade da minha família e respeito a personalidade dos meus filhos. Não há tabus à mesa e nem sempre pensamos da mesma maneira”, reconheceu Seguro.

Terra vinho e azeite

Em Penamacor, na última década, investiu num alojamento local, produziu vinho (Serra P) e azeite (Serra Magor). “Comecei a fazer vinho como homenagem ao meu pai, e como era bom, pensei: tenho aqui uma área de negócios. Então, comprei uma quinta, replantei, modernizei e hoje é uma paixão”, afirmou na CMR. Vai bem com assados.

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Universidade aulas

Antes de avançar para Belém, era professor, em Lisboa, no ISCSP e na Universidade Autónoma. Foi nesta última que se licenciou em Relações Internacionais e chegou a ter de conciliar as aulas com a função de ministro. Nunca quis ser tratado de forma diferente dos colegas. E quer terminar o doutoramento, que deixou a meio.

Feitio difícil de irritar

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“Não me irrito com facilidade”, admite. Apesar disso, garante que sabe “quando é preciso dar um murro na mesa”. Não gosta de trabalhar com barulho e, por isso, mudou o gabinete de secretário-geral para o sótão da sede do PS, no Rato.

Música rap e cante

Na música diz que é eclético. Quando ouve ‘Haja O Que Houver’, dos Madredeus, lembra-se da mulher. Gosta de Trovante, Rui Veloso, António Zambujo, Gisela João e, mais recentemente, do rapper Slow J e dos alentejanos Os Vizinhos.

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Não esquece desleais

“Não esqueço, mas não sou vingativo.” A citação é de Seguro, no livro ‘Um de Nós’ (Casa das Letras), lançado no final de 2025, a propósito da candidatura a Belém.

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