BE pede à ONU que averigue "risco de violação" de direitos trans na lei aprovada hoje
Comunicação sugere que as iniciativas são suscetíveis de "violar obrigações internacionais de direitos humanos vinculativas do Estado português".
O Bloco de Esquerda (BE) pediu esta sexta-feira à Organização das Nações Unidas (ONU) que averigue o "risco de violação" dos direitos trans em Portugal, após a aprovação do que considera "legislação restritiva de autodeterminação de género".
Assinada pelo deputada bloquista no Parlamento Europeu, Catarina Martins, e pelo deputado na Assembleia da República (AR), Fabian Figueiredo, a comunicação sugere que as iniciativas do PSD, do Chega e do CDS-PP aprovadas esta sexta-feira, na AR, são suscetíveis de "violar obrigações internacionais de direitos humanos vinculativas do Estado português" e pediu ao alto comissário da ONU para os direitos humanos, Volker Türk, que se pronuncie publicamente sobre o caso.
"Solicitamos um pronunciamento público sobre a conformidade das medidas descritas com o direito internacional dos direitos humanos, bem como o recurso aos mecanismos disponíveis, designadamente comunicações aos relatores especiais competentes, revisão no âmbito do exame periódico universal e orientações dirigidas ao Estado português, com vista a assegurar o cumprimento das suas obrigações internacionais", lê-se, na carta consultada pela Lusa.
O BE defendeu que a lei esta sexta-feira revogada, de 07 de agosto de 2018,relativa ao direito à autodeterminação da identidade de género e expressão de género e à proteção das características sexuais, era "uma das mais avançadas da Europa", com "um procedimento administrativo baseado na autodeterminação, sem exigência de diagnóstico médico, intervenção cirúrgica ou hormonal, para a alteração do nome e da menção de género no registo civil".
Na sequência dos projetos de lei aprovados esta sexta-feira, os bloquistas sublinham que a introdução de diagnóstico clínico como condição para a alteração da menção de género no registo civil reinstala "uma lógica de patologização que o direito internacional e a comunidade científica reconhecem como obsoleta e prejudicial".
Catarina Martins e Fabian Figueiredo consideram igualmente que a eliminação ou restrição do acesso a bloqueadores de puberdade para menores contraria uma prática com "apoio científico robusto e recomendadas por múltiplas organizações médicas internacionais".
Já a supressão de jovens entre os 16 e os 17 anos requererem a alteração do registo civil, anteriormente anteriormente prevista com assistência dos representantes legais ou autorização judicial retira, para o BE, "proteções especificamente destinadas a grupos vulneráveis em fase de desenvolvimento".
Na carta, a eurodeputada e o deputado na AR citam ainda "evidência científica" para afirmar que o "reconhecimento legal da identidade de género baseado na autodeterminação reduz significativamente a ideação suicida, o sofrimento psicológico e a exposição à discriminação e à violência".
Convencido de que a legislação aprovada esta sexta-feira em Portugal representa "uma regressão grave e injustificada na proteção dos direitos fundamentais das pessoas trans e intersexo", que exige ao Alto Comissariado para os Direitos Humanos acompanhamento ativo dos efeitos da legislação aprovada sobre as pessoas trans e de género diverso em Portugal.
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