Cunhal o povo está contigo
Estava já no cemitério do Alto de S. João, frente à urna do irmão, quando tirou os óculos escuros e ergueu o punho esquerdo no ar para, bem alto, cantar o refrão da ‘A Internacional’: “Bem unidos façamos, nesta luta final, uma terra sem amos, a Internacional”.
Maria Eugénia era abraçada pela sobrinha, Ana, a filha do líder comunista chegada esta manhã da Austrália, onde reside com os dois filhos, netos de Álvaro Cunhal.
Ana, vestida de preto, beijara a tia, momentos antes, gesto que repetiu para com a companheira do pai, Fernanda Barroso, provocando-lhe lágrimas. Já na carrinha funerária, onde a urna de Cunhal foi transportada, Ana e Fernanda percorreram todo o caminho entre a Praça do Chile e o cemitério, de mão dada; um percurso curto mas demorado porque acompanhado por milhares de pessoas a pé.
A urna, saída do ‘Centro Vitória’, chegou à praça pelas 17h00. Recebida com uma ovação de palmas e gritos “PCP, PCP”, a par de “a luta continua” e “Cunhal, amigo, o povo está contigo”, subiu a Morais Soares, a muito custo. Todos queriam tocar no carro funerário, todos queriam olhar a família do líder e cumprimentar o secretário-geral Jerónimo de Sousa.
Ruben de Carvalho, candidato da CDU à Câmara de Lisboa, referiu ao CM que já esperava uma enchente deste tipo, mas a verdade é que muitos elementos da organização estavam estupefactos e apesar de apelarem à compreensão com um “facilitem camaradas”, houve que improvisar seguranças. E até o presidente da Junta de Freguesia da Ajuda integrou o cordão humano para controlar os militantes, amigos e admiradores de Cunhal.
Carlos do Carmo esteve lá. Acompanhado da mulher e da presidente da Câmara de Almada, o fadista disse ao CM que com a sua presença prestava a sua última homenagem a um homem de quem foi amigo. “Um homem superior que, sorte nossa, nasceu português.”
Já no cemitério, presentes estiveram também, pelo menos, três conhecidos socialistas: o deputado Vera Jardim, o presidente do partido, Almeida Santos, e o presidente do grupo parlamental, Alberto Martins.
E, em representação do Governo o ministro da Administração Interna, António Costa, e o ministro do Trabalho e Solidariedade Social, Vieira da Silva.
Todos ouviram a voz dos militantes a gritar palavras de ordem e cantar ‘A Internacional’ seguida de o ‘Hino Nacional’, como Cunhal pediu. E também por vontade expressa do líder não houve discursos.
O corpo entrou no crematório pelas 18h10 acompanhado da família e de alguns dirigentes políticos como Jerónimo de Sousa, que quando saiu foi cumprimentado por uma delegação do Bloco de Esquerda: Francisco Louça, Fernando Rosas, Daniel Oliveira (visivelmente emocionado) e Nuno Ramos de Almeida. O cumprimento gerou gritos dos militantes: “PCP, PCP. Somos um partido Marxista-Leninista.”
PORTO
Só do Porto vieram cerca de mil pessoas, militantes e simpatizantes de Álvaro Cunhal, alguns transportados em 14 autocarros alugados pela estrutura local do CENTRO
Da Área Metropolitana de Lisboa, o PCP alugou camionetas para transportar militantes, sobretudo, da Margem Sul: Barreiro, Moita e Seixal.
ALENTEJO
Évora, Beja, Montemor-o-Novo, Avis, Portel, Estremoz, Mora, Vendas Novas, Serpa, Castro Verde, Baleizão, Sines, Santiago do Cacém e Couço foram algumas das localidades que reuniram militantes para virem até Lisboa, assistir ao funeral. Vieram mais de dois mil.
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