Governo iniciou transposição de diretiva europeia que protege liberdade de expressão

Esta semana, o Sindicato dos Jornalistas considerou um "desprezo pela liberdade de expressão" que Governo falhasse o prazo para transposição da diretiva europeia para a lei nacional.

08 de maio de 2026 às 15:49
Ministro da Presidência, António Leitão Amaro Foto: Manuel de Almeida/Lusa
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O Governo já iniciou o processo de transposição da diretiva europeia contra tentativas de condicionamento do debate público, disse fonte do gabinete do ministro da Presidência, após o Sindicato dos Jornalistas ter alertado que o prazo terminou na quinta-feira.

"Confirmamos que deu já entrada em circuito legislativo uma proposta de lei do Governo para a transposição da diretiva 2024/1069 do Parlamento Europeu e do Conselho, de 11 de abril de 2024, relativa à proteção das pessoas envolvidas na participação pública contra pedidos manifestamente infundados ou processos judiciais (diretiva 'anti-SLAPP')", indicou o gabinete de António Leitão Amaro numa resposta escrita enviada hoje à agência Lusa.

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Segundo referiu, "a importância e complexidade técnico-jurídica da diretiva implicou a realização de trabalhos técnicos preparatórios aprofundados, nomeadamente no que respeita à sua articulação com o ordenamento jurídico nacional".

"Acresce que conclusão destes trabalhos foi condicionada pela interrupção do processo legislativo na sequência do termo de funções do XXIV Governo Constitucional", disse.

Esta semana, o Sindicato dos Jornalistas (SJ) considerou um "desprezo pela liberdade de expressão" que Governo falhasse o prazo para transposição da diretiva europeia para a lei nacional.

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Em comunicado, o SJ lamentava o fim do prazo "sem que o Governo ou a Assembleia da República tenham dado sinais de querer aplicar em Portugal os termos desta legislação que visa proteger a liberdade de expressão, limitando ou impedindo o uso de 'litigância de má-fé' contra jornalistas ou cidadãos".

O termo SLAPP é um acrónimo de 'Strategic Lawsuits Against Public Participation' (Processos Estratégicos Contra a Participação Pública, em português) e refere-se ao uso da litigância judicial como "ferramenta para amedrontar ou punir a crítica, o debate livre e a participação pública", segundo a definição da Transparência Internacional Portuguesa.

Segundo explica o SJ, a diretiva europeia anti-SLAPP "visa impedir que os tribunais, já tão sobrecarregados de processos infindáveis, sejam ainda usados em ataques à liberdade de expressão através de processos milionários que, mais do que procurar justiça, pretendem exaurir os recursos de pessoas ou instituições, como órgãos de comunicação social (OCS)".

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"Um processo destes tem, por norma, pedidos de indemnização desproporcionais e exorbitantes, que, em muitos casos, são suficientes para levar à falência meios de comunicação, sobretudo independentes ou de menor capacidade financeira", salienta.

Para o sindicato, a não transposição para a legislação portuguesa no prazo estabelecido sinaliza "um desprezo pela liberdade de expressão e pela atividade dos jornalistas".

Isto porque, embora a sua aplicação seja automática nos países da União Europeia (UE), nomeadamente Portugal, o facto é que até ser transposta não terá efeitos a nível nacional, aplicando-se as proteções apenas a casos de SLAPP com uma dimensão transnacional.

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"Daí a importância de transpor esta diretiva para o quadro legal português, garantindo que também se aplica a processos a nível nacional", enfatiza.

Falhado o prazo, o SJ defende agora "que a transposição seja feita de forma competente, alargando a definição de SLAPP a todas as questões de interesse público com impacto nacional".

Assim, considera "fundamental" que a transposição imponha ao demandante uma caução inicial para pagamentos de custas e eventuais indemnizações e, ainda, que preveja a criação de balcões de apoio às vítimas de SLAPP, que é "outra das recomendações importantes da diretiva".

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Adicionalmente, o sindicato defende que a transposição da diretiva "seja feita de forma transparente e aberta à sociedade", com a adaptação ao quadro legal nacional a ser precedida de um "amplo debate", no qual diz estar "disponível desde já a participar".

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