Marques Mendes esteve na origem da investigação às PPP's

Comentador lançou a 'bomba', em 2011. Procurador abriu processo, no Algarve. Juiz diz que, agora, o antigo secretário de Estado Paulo Campos deve ser julgado em Faro.

26 de junho de 2026 às 09:46
Marques Mendes Foto: JOSÉ COELHO/LUSA
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Quando, em outubro de 2011, Luís Marques Mendes lançou a suspeitas sobre a renegociações dos contratos das Parcerias Público-Privadas (PPP) rodoviárias, talvez não acreditasse que as consequências das suas palavras, 15 anos depois, ainda se fizessem sentir. O tema acabaria no (lento) circuito dos tribunais e, esta semana, um juiz de instrução mandou julgar o ex-secretário de Estado das Obras Públicas Paulo Campos e o ex-diretor de concessões da Estradas de Portugal Rui Manteigas por participação económica em negócio. Segundo o magistrado, o julgamento deve ser realizado em Faro e o processo explica a razão.

Foi a 27 de outubro de 2011 que o então comentador na já desaparecida TVI24 lançou a suspeita de que os governos de José Sócrates teriam sido generosos para os privados na renegociação dos contratos das PPP. "Só que nessa ocasião o Grupo Mota exigiu que para introduzir portagens naquelas três Scut fossem também renegociados os contratos de outras duas concessões (a da Grande Lisboa e a do Norte – A7 e A11). Aqui é que começou o problema. E que problema”, referiu, dizendo que, na sua opinião, talvez isto de tratasse de um "caso de polícia".

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Com a crise financeira e a "troika" (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional) instaladas no País desde abril de 2011, Marques Mendes acrescentaria que os prejuízos para o Estado dariam até para "pagar o subsídio de Natal e férias" que, precisamente, a "troika" tinha cortado.

Na comarca de Faro, o procurador António Ventinhas, antigo presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP), decidiu abrir um inquérito, tendo em conta as revelações feitas por Marques Mendes.

O processo acabaria por se arrastar entre o Departamento de Investigação e Ação Penal de Lisboa (DIAP) e o Departamento Central de Investigação e Ação Penal de Lisboa (DCIAP) até dezembro de 2021, já a "troika" tinha saído de Portugal, mas a Covid-19 tinha chegado.

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Os procuradores Jorge Malhado e Joana César de Campos acusaram os antigos secretários de Estado Carlos Costa Pina e Paulo Campos e o antigo diretor de concessões das Estradas de Portugal, Rui Manteigas pelo crime de participação económica em negócio.

A fase de instrução arrastou durante quase quatro anos no Tribunal Central de Instrução Criminal (TCIC). Até que, esta segunda feira, o juiz Jorge Bernardes Melo decidiu arquivar as suspeitas contra Carlos Costa Pina e mandar para julgamento Paulo Campos e Bruno Manteigas. Em Faro, porque foi nesta comarca que a “notícia do crime” foi conhecida e o respetivo inquérito foi aberto.

Na decisão instrutória, o juiz não pronunciou os arguidos para serem julgados por favorecimento à Ascendi. E um dos motivos para que tal acontecesse foi a declaração de nulidade de uma perícia financeira feita por Mariana Sousa. Esta perita nomeada pelo Ministério Público, antes de iniciar os trabalhos, tinha sido ouvida por duas vezes como testemunha.

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Recorrendo à lei, Jorge Bernardes de Melo considerou que a mesma é clara ao afirmar estar impedida de “exercer funções de perito num processo penal” uma pessoa que tenha sido “ouvida” como testemunha. “Nestes termos, o valor probatório de uma perícia elaborada por alguém que também foi anteriormente inquirido na qualidade processual prévia de testemunha no mesmo processo é nulo ou juridicamente inválido”, referiu o juiz.

Mas, por outro lado, Jorge Bernardes de Melo decidiu levar Paulo Campos e Rui Manteigas a julgamento por vários contratos de subconcessões rodoviárias assinados entre 2007 e 2009 (Douro Interior, Algarve Litoral, auto-estrada transmontana e do Baixo Alentejo e, por fim, Litoral Oeste). De acordo com a decisão, ambos os arguidos participaram num esquema para ludibriar a fiscalização do Tribunal de Contas, com a inclusão nos contratos do conceito de “compensações contingentes”. Esta “solução” permitira criar um fluxo de pagamentos entre as concessionárias e o concedente (Estado) com prejuízo do segundo.

Depois de, esta semana, ter sido conhecida a decisão do juiz de instrução, Carlos Costa Pina, antigo secretário de Estado das Finanças, inicialmente acusado pelo Ministério Público, referiu ter demonstrado que a decisões por si tomadas “permitiram que o Estado Português obtivesse, com essa negociação, um ganho financeiro significativo”

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