Ministro responde a críticas sobre Saramago dizendo que alternativa "também é militante do PCP"
Em causa está a possibilidade de os professores de Português poderem optar entre duas obras de José Saramago e um livro de Mário de Carvalho.
O ministro da Educação respondeu esta quarta-feira a críticas do PS sobre a possibilidade de José Saramago deixar de ser leitura obrigatória no 12.º ano, afastando qualquer viés ideológico uma vez que a alternativa "também é militante do PCP".
O tema foi levado ao debate setorial com o Ministério da Educação, Ciência e Inovação, que está a decorrer no parlamento, pelo deputado socialista Porfírio Silva, que considerou existir um "histórico da direita portuguesa de perseguição ao escritor José Saramago".
Referindo-se à versão preliminar revista das aprendizagens essenciais (AE), em consulta pública desde 27 de março, o deputado afirmou que a possibilidade de os professores de Português optarem entre duas obras de José Saramago e um livro de Mário de Carvalho levanta preocupações.
"O PS não quer transformar uma decisão curricular numa decisão política. Deve ser pedagógica e educacional", defendeu Porfírio Silva, pedindo garantias de que "não haverá nenhum enviesamento ideológico sobre leituras de escolaridade obrigatória".
Na resposta, o ministro da Educação, Ciência e Inovação afirmou que o PS pode estar "descansado".
"O que é dado como opção, numa avaliação exclusivamente técnica, é escolher um escritor militante do PCP e outro escritor que, tanto quanto sei, também é militante do PCP", disse Fernando Alexandre.
Nesta proposta de revisão das AE, o escritor José Saramago, prémio Nobel da Literatura, deixa de ser de leitura obrigatória no 12.º ano, podendo as escolas optar por outros autores.
Atualmente, estão previstas duas obras de José Saramago como opção dentro do romance ("Memorial do Convento" ou "O Ano da Morte de Ricardo Reis"), mas a versão preliminar passa agora a incluir uma terceira opção, com um livro de Mário de Carvalho como alternativa ("Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde").
O ministro da Educação já tinha respondido, na segunda-feira, à contestação gerada pela proposta, explicando que a consulta pública sobre as aprendizagens essenciais "é absolutamente técnica" e que não há ainda nenhuma decisão.
Na altura, Fernando Alexandre salientou que "José Saramago é, obviamente, um escritor de referência" e admitiu que deve ser obrigatório ler este como outros escritores nacionais, apontando que há "grandes escritores em Portugal".
Durante o debate de esta quarta-feira, no parlamento, o responsável voltou a sublinhar a natureza técnica da proposta, recusando o elogio do deputado Rui Cardoso, do Chega, que apontou a coragem do MECI para retirar a obrigatoriedade de lecionar José Saramago.
"Tenho coragem para fazer muitas coisas, mas neste caso não foi um ato meu, nem do secretário de Estado", disse Fernando Alexandre, admitindo, ainda assim, que não considera a alteração "problemática".
"Acho que Saramago não tem de ser obrigatório. Olhando para outros escritores portugueses, consigo identificar vários que podiam estar como opção", disse, referindo nomes como Agustina Bessa Luís, António Lobo Antunes ou Gonçalo M. Tavares.
Já em resposta a Inês Sousa Real, do PAN, sublinhou a ausência no currículo de outros autores como a escritora brasileira Clarice Lispector e insistiu: "O Nobel é uma referência, mas temos outros 'nobelizáveis' e o que precisamos é de boa literatura".
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