Nem subserviência infantil nem rebeldia juvenil

Anacoreta Correia, vice-presidente do CDS-PP, apela para que as relações no interior do seu partido melhorem. Sobre Cavaco, acha que teve uma ou outra expressão demasiado entusiástica perante o Governo que poderia ter sido evitada.

03 de dezembro de 2006 às 00:00
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Correio da Manhã – Concorda com a data de 11 de Fevereiro para o referendo?

Anacoreta Correia – Tínhamos uma preferência por uma data mais tardia [Março]. Esta escolha significa que vamos ter de trabalhar com mais potência. Julgo que o partido não se deve empenhar directamente, mas a sua orientação é absolutamente clara pelo ‘não’.

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– Diz que o partido não se deve empenhar directamente para evitar o ónus da derrota?

– De maneira nenhuma. Isto é uma questão transversal na sociedade portuguesa. Não é legítimo fazer-se uma leitura partidária.

– Não existirão ilações políticas?

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– Não digo que não hajam ilações políticas porque se retiram ilações dos factos mais comezinhos.

– Quando fala em factos comezinhos, está a referir-se a quê?

– A uma quantidade de pequenos incidentes que poluem a acção política neste momento.

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– Exactamente.

– Quer concretizar?

– Estou preocupado e faço um apelo para que as relações no interior do partido melhorem e que os dirigentes procurem falar entre eles e não aproveitando o mínimo pretexto para fazerem declarações via Imprensa.

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– Está a falar de Pires de Lima?

– Julgo que o dr. Pires de Lima manifestou a sua opinião porque achava que o CDS não deveria ser incondicional no apoio ao prof. Cavaco Silva e fê-lo oportunamente dentro do partido, onde a questão foi discutida. O partido tomou a decisão. Não é altura para estar a reabrir essa questão. E reabri-la de uma forma que não estou de acordo. Não estou de acordo com a expressão “subserviência infantil” como não estaria de acordo se dissessem que são atitudes de “rebeldia infantil”. Não aceito nem subserviência infantil nem rebeldia juvenil.

– Está a dizer que Pires de Lima teve uma atitude de rebeldia infantil?

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– São as atitudes. A uma pessoa com a qualidade do dr. Pires de Lima, que lhe reconheço, há o direito de se lhe pedir alguma contenção nesse tipo de análises.

– O partido outra vez a viver uma crise?

– Não nego e faço um apelo. Isto exige um exame de consciência sereno sobre a oportunidade e a justiça de certas críticas. No debate político mais recente, o Governo, que deveria estar à defensiva dada a contestação social, passou a fazer o levantamento do estado da oposição porque a posição que existe no CDS não é muito diferente da que existe no PSD e, pelos vistos, o vírus da fracturação chegou ao PCP que é conhecido por ser um partido monolítico.

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– O CDS-PP está à procura de alguma âncora de prestígio institucional junto do Presidente da República como defendeu Marcelo Rebelo de Sousa?

– Não. Aliás seria um bom trabalho de investigação académica vermos a percentagem de sinistralidade das previsões políticas do professor Marcelo. Que é bastante elevada. Estamos a ser muito coerentes. O sr. Presidente da República não está a frustar minimamente as expectativas dos portugueses. Estamos a apoiá-lo. A cooperação estratégica que o Presidente da República está a desenvolver, podendo talvez achar que uma ou outra expressão demasiado entusiástica perante o Governo poderia ter sido evitada, mas, no fundamental, o sr. Presidente da República está a fazer...

– Não atribuir juízos de valor às reformas do Executivo. É disso que está a falar?

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– Exactamente. Não atribuir. Posso não gostar muito, mas não é o essencial porque o Presidente está a fazer aquilo que prometeu, que era desenvolver a cooperação estratégica. Estamos constantemente a ver os exemplos em Espanha, mas esquecemo-nos que grande parte do que foi conseguido em Espanha teve por base o pacto de Moncloa. Em Portugal, não se pode, quando se faz um pacto, e no meu partido, tanto o líder como eu próprio, não atribuirmos grande importância ao facto de estarmos fora desse pacto [da Justiça] e isso ter constituído motivo de frustração para algumas pessoas. Afinal vêm reconhecer que até nos dá outro espaço de abertura e de incidência política.

José Miguel Nunes Anacoreta Correia, vice-presidente do CDS-PP, engenheiro civil, é conselheiro de Estado. Nasceu em Moçambique, na cidade da Beira, em 1 de Janeiro de 1944. Foi secretário de Estado dos Transportes no Governo de Sá Carneiro (1980) e secretário de Estado da Defesa no primeiro Governo de Pinto Balsemão (1981). Foi responsável pela coordenação autárquica do CDS em 2001 e deputado em várias legislaturas.

Desempenhou vários cargos no CDS, nomeadamente de secretário-geral (1981/83) e de vice-presidente (1986/87). Após as últimas eleições presidenciais Cavaco Silva chamou-o para Conselheiro de Estado e pouco tempo depois deixou o Parlamento para ir trabalhar com Maria José Nogueira Pinto na Câmara de Lisboa.

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