Pacheco Pereira acusa Ventura de "justificar a ditadura" enquanto líder do Chega associa historiador à extrema-esquerda
Frente a frente decorreu em tom aceso, com interrupções constantes e durou quase mais 30 minutos do que tinha sido anunciado.
José Pacheco Pereira acusou o líder do Chega de "justificar a ditadura" e liderar um partido cruel e "anti-cristão", num debate em que André Ventura associou o historiador à extrema-esquerda e acusou-o de ter "palas nos olhos".
O debate desta noite na CNN Portugal partiu de um desafio lançado por Pacheco Pereira - e que André Ventura aceitou - para uma discussão baseada em "factos e documentos", após a polémica intervenção do presidente do Chega no parlamento durante a sessão solene que assinalou os 50 anos da Constituição.
O frente a frente decorreu em tom aceso, com interrupções constantes e durou quase mais 30 minutos do que tinha sido anunciado. Os dois intervenientes tinham documentos para basear os argumentos que foram referindo, e Pacheco Pereira levou também uma palmatória, utilizada para castigos corporais.
Os dois mantiveram as respetivas posições relativamente ao número de presos políticos antes e depois da Revolução de 1974, com o líder do Chega a procurar justificar que quis dizer no parlamento que "no dia antes da Revolução havia menos presos políticos do que houve uns meses depois", para tentar "acabar com aquela narrativa" de que "foi tudo mal antes e foi tudo bom depois".
André Ventura rejeitou também que todas as pessoas detidas nas antigas colónias fossem presos políticos e acusou José Pacheco Pereira de só se indignar "com a violência da direita", enquanto a "violência da esquerda parece-lhe tudo bem e parece-lhe tudo aceitável", repetindo várias vezes que o seu opositor tem "palas nos olhos".
"Há comparações que são elas próprias mentiras, e uma dessas comparações é falar do que aconteceu no período em 1974, 1975 e 1976 e comparar, que é o que o André Ventura faz, com o que aconteceu nos 48 anos anteriores", criticou José Pacheco Pereira, considerando "uma comparação absurda".
O historiador acusou o líder do Chega de "justificar a ditadura" e "dizer que o que aconteceu depois era semelhante ao que acontecia antes" do 25 de Abril.
"E essa comparação coloca-o do lado de antes do 25 de Abril. Sabe porquê? Porque o que está a fazer, é dizer que a democracia é igual à ditadura", criticou José Pacheco Pereira.
O antigo líder parlamentar do PSD considerou também que este não foi "um debate entre direita e esquerda", mas sim "um debate sobre a História".
Questionado diretamente se gosta mais do antigo regime ou do atual, André Ventura respondeu que "o que gostava de ter era uma democracia plena".
"Nós tivemos uma revolução miserável [...] O que nós devíamos ter tido era uma transição democrática, não devíamos ter tido comunistas a assaltar o poder, a expropriar, a matar e a prender", afirmou.
Neste ponto, Pacheco Pereira contrapôs que a Revolução de 1974 "deu a liberdade a Portugal" e a "democracia para [Ventura] poder estar no parlamento", e acusou o líder do Chega de mostrar "ignorância e demagogia".
Sobre a descolonização, o líder do Chega classificou esse processo como "uma tragédia" e acusou o Estado de ter "abandonado" as famílias que voltaram de África e os antigos combatentes.
Já Pacheco Pereira considerou que a "grande responsabilidade do que aconteceu em África e do tumulto que se gerou depois de 1975 é de Salazar e Marcelo Caetano".
O historiador acusou ainda André Ventura de liderar um país cruel e "o mais anti-cristão", considerando que as posições do Chega contrariam as defendidas pelo Papa.
No debatem houve ainda tempo para falar sobre corrupção, com o presidente do Chega a considerar que "Sócrates roubou muito mais do que Salazar" e Pacheco Pereira a defender que o antigo primeiro-ministro "foi protegido durante muitos anos, entre outras coisas, pelo PSD" e que o partido de Ventura, ao "associar a corrupção à democracia", está a "lutar contra a democracia".
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