Paulo Raimundo acusa Montenegro de muita "conversa" e nenhuma medida concreta em relação ao mau tempo
Líder do PCP reagiu à declaração de Montenegro sobre o plano de recuperação, considerando que "o rei vai nu".
O secretário-geral do PCP acusou este sábado o primeiro-ministro de falar meia hora sem dizer nada em concreto sobre a resposta à devastação provocada pelas recentes tempestades e advertiu que a situação não poder ser aproveitada para negócios.
Esta posição foi assumida por Paulo Raimundo em declarações à agência Lusa, a meio de uma visita ao Bairro Padre Cruz, em Lisboa, em que esteve acompanhado pelo vereador João Ferreira e por responsáveis da Junta de Freguesia de Carnide.
Na sexta-feira, após o Conselho de Ministros, o primeiro-ministro, Luís Montenegro, afirmou que o Governo quer aprovar a versão final do PTRR (Plano de Transformação, Recuperação e Resiliência) no início de abril e que o envelope financeiro só será definido após o período de auscultação nacional.
Perante esta linha de atuação do primeiro-ministro, o secretário-geral do PCP considerou que "o rei vai nu".
"Para sermos corretos e rigorosos, não há nada para comentar da resposta que não foi dada [na sexta-feira] pelo primeiro-ministro. Tivemos meia hora de conversa", sustentou Paulo Raimundo.
Para o líder comunista, Luís Montenegro tem essa característica de "conseguir falar meia hora sem dizer nada", e na sexta-feira "repetiu-a", após estar "meia hora a falar sem dizer nada".
"Se perguntassem assim: um comentário ao plano, não há plano; um comentário às medidas; não houve medidas; um comentário à gravata do senhor primeiro-ministro, isso posso comentar, é o única coisa possível de comentar", respondeu, usando um tom de humor.
A seguir, no entanto, Paulo Raimundo salientou que neste momento, ainda em consequência das tempestades, "há pessoas sem água, sem eletricidade e sem comunicações".
"Sobre as questões de fundo, como é que chegámos aqui, ninguém quis falar sobre isso. Temos a produção de energia e a manutenção da rede elétrica nas mãos de interesses privados. Temos todas as telecomunicações nas mãos dos interesses privados", assinalou.
Paulo Raimundo rejeitou também de alguns membros do Governo de que a CDU, através do PEV, durante os executivos da "Geringonça", ter-se-á oposto à construção da barragem de Girabolhos, considerada essencial para a regularização da bacia do Mondego,
"Que eu saiba não há nenhum membro dos nossos aliados do Partido Ecologista Os Verdes na administração da Endesa. Mas tenho a certeza absoluta é que nenhuma obra dessas foi feita por opção da própria Endesa", contrapôs.
De acordo o secretário-geral do PCP, um dos principais problemas é que "as grandes infraestruturas, as grandes obras necessárias, não dependem da vontade dos governos".
"Os governos permitam que as empresas decidam se não se faz a obra, ou se vai ser feita. Foi assim no caso da barragem com a Endesa. Também há anos que andamos para fazer o novo aeroporto de Lisboa. O Governo decidiu o nome, é o aeroporto Luís de Camões, o resto quem decide é dona da ANA [Aeroportos de Portugal]", acusou.
Paulo Raimundo deixou mais uma advertência: "Temos um Governo que é especialista em aproveitar todas as oportunidades para o negócio".
"Só espero que isto não seja mais um exemplo concreto dessa opção, ou seja, transformar um problema em mais um negócio. Vamos ver o que é que vai acontecer", afirmou.
Durante a visita ao Bairro Padre Cruz, o secretário-geral do PCP foi confrontado com queixas de cidadãos sobre o estado de progressiva degradação das habitações, sem que exista resposta eficaz por parte da Câmara de Lisboa. Ouviu também críticas sobre a falta de apoio por parte da Câmara e do Estado a entidades vocacionadas para a integração social, caso da Associação de Futebol de Rua.
"Muitas vezes, crianças e jovens têm aqui a única refeição decente do dia. Somos como os bombeiros, sempre chamados em emergência", lamentou uma responsável da associação, que dá apoio a jovens de 90 agregados familiares.
Perante estas situações, Paulo Raimundo elogiou a persistência dos cidadãos que prestem apoio no Bairro Padre Cruz, "o maior bairro social da Península Ibérica, com cerca de nove mil habitantes", em condições muito complexas.
"Existem muitos problemas, mas este bairro tem uma forte participação associativa e nas estruturas que existem. Este bairro tem muitos problemas sociais. E quem quer conhecer a realidade do país tem de pisar estas terras e não nas bolhas em que alguns vivem", advogou o secretário-geral do PCP.
Neste contexto, Paulo Raimundo apontou que a Junta de Freguesia de Carnide "não tem mãos a medir, o que é um bom sinal, porque as pessoas são justamente reivindicativas".
"Mas há aqui uma responsabilidade política, desde logo da Câmara Municipal de Lisboa, mas não só, também decorrente das opções políticas do próprio Governo", acrescentou.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt