POVÃO BRASILEIRO À ESPERA DO SEU PRESIDENTE
O presidente brasileiro, Lula da Silva, vai aproveitar a vinda a Lisboa para recordar a necessidade de combater a miséria e de reduzir os gastos com armamento. Lula chegou ontem à noite a Lisboa para uma visita de três dias, durante os quais manterá contactos com os governantes portugueses e com representantes da comunidade brasileira residente em Portugal. Facto, já criticado pelo presidente da Casa do Brasil, Carlos Vianna, que gostaria de ver o Presidente do seu país em contacto directo com o "povão".
Antes de deixar S. Paulo rumo a Lisboa, Lula afirmou que vai usar a sua primeira visita a Portugal, ao Reino Unido e a Espanha para "chamar a atenção para a necessidade de combater a miséria no mundo". "Estamos a gastar muito em armas, quando podíamos estar a produzir feijão, arroz e outras coisas que significam paz", declarou o chefe de Estado brasileiro. A fome é um problema que afecta milhões de brasileiros e que levou Lula a lançar um programa governamental de luta contra este flagelo cuja presidente honorária é a sua mulher, Marisa da Silva.
Na agenda da visita de Lula está, também, a assinatura de acordos com Portugal, nomeadamente na área da circulação de pessoas. Entre os documentos a assinar encontra-se um memorando que determina que os brasileiros a viverem ilegalmente em Portugal não precisarão voltar ao Brasil para regularizarem a situação. O problema foi levantado com a entrada em vigor da nova Lei de Estrangeiros, em Março passado, segundo a qual, os imigrantes que entrem em Portugal depois de Novembro de 2001 terão de fazer o pedido de visto de trabalho e apresentar um contrato de trabalho no seu país de origem.
De acordo com o embaixador brasileiro em Lisboa, José Gregori, o acordo a ser assinado por Lula estabelece que os brasileiros poderão obter esses vistos em consulados portugueses, nomeadamente nos mais próximos de Portugal - Sevilha ou Vigo, em Espanha. Segundo Gregori, as autoridades brasileiras estão ainda a tentar conseguir que o referido acordo possa abranger qualquer imigrante brasileiro independentemente de há tempo vive em Portugal.
'PORTUGAL É HIPÓCRITA'
Na sua passagem por Lisboa, Lula da Silva tem marcado um encontro com representantes da comunidade brasileira. Um encontro que, para a Casa do Brasil em Lisboa, fica um tanto aquém das expectativas desta comunidade que preferia um contacto directo com o seu presidente. "O 'povão' teria gostado muito de ouvir o seu Presidente, o primeiro nascido no seio deste mesmo 'povão'", lê-se num comunicado da Casa do Brasil.
Horas antes da chegada de Lula a Lisboa, o presidente da Casa do Brasil, Carlos Vianna, acusou o Estado português de "hipocrisia" por aceitar os pagamentos feitos às finanças e à segurança social pelos imigrantes ilegais sem tomar medidas para regularizar a situação destes.
"O Estado português é hipócrita. Tem dois pesos e duas medidas. Se o imigrante serve para ser contribuinte, pagando IRS e a segurança social, então o Estado tem a obrigação de legalizar a situação desse imigrante", declarou Vianna. Esta situação deve--se ao facto de mesmo sem visto de trabalho, os imigrantes brasileiros conseguirem obter um número de contribuinte, bastando para isso mostrar o passaporte.
Carlos Vianna vai aproveitar o encontro com Lula da Silva para pedir o desenvolvimento de uma política global na sua relação com as comunidades brasileiras no exterior, campo no qual considera "estar tudo por fazer".
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