SALAZAR AINDA DIVIDE O POVO

Faz hoje 114 anos que nasceu em Vimieiro, Santa Comba Dão, António de Oliveira Salazar, uma das figuras mais proeminentes e polémicas da história contemporânea portuguesa. Em Santa Comba Dão existem agora poucos sinais da presença do estadista.

28 de abril de 2003 às 00:00
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Depois de destruída a sua estátua, resta uma avenida com o seu nome – a lápide está coberta por arbustos –, onde estão localizadas as casas em que nasceu, passou férias, residiu e acabou por morrer.

Os familiares reclamam o aproveitamento do espólio do ditador e não se conformam com o facto de milhares de documentos estarem em caixotes, sem qualquer aproveitamento científico e cultural. É neste contexto que ganha de novo importância a questão da criação de um museu do Estado Novo no Vimieiro. Este projecto de longa data, assumido por Orlando Mendes, presidente da Câmara Municipal de Santa Comba Dão, como um dos seus objectivos, baseia-se num estudo dirigido por Rosa Pires, professor de Turismo da Universidade de Aveiro, e insere-se numa estratégia de desenvolvimento turístico da região.

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A construção do museu tem sido adiada e o autarca aponta como uma das principais causas para o protelar da sua concretização um conjunto de problemas relacionados com as partilhas entre os herdeiros do ditador, questão desvalorizada pela família. Por outro lado, algumas pessoas terão também tentado enganar a autarquia, apresentando objectos falsos como tendo pertencido a Salazar, situação que levou à imposição de uma extrema cautela na selecção e angariação de material para o futuro museu.

Entretanto, gerou-se também alguma agitação popular, pois muitas pessoas não concordam com a criação de um museu que consideram ser "uma homenagem desmerecida" a uma figura sobre a qual existem demasiados conflitos e cujas acções estão ainda muito presentes na mente dos portugueses. Mas, a constituição do museu do Estado Novo estaria, na opinião dos responsáveis da Câmara, baseada num conceito mais abrangente, funcionando como uma montra de documentos diversos que definem um importante momento da história nacional e não como um "monumento" em honra de Salazar.

Esta opinião é partilhada por Rui Salazar de Lucena e Melo, sobrinho-neto e herdeiro do estadista, que doou à cidade um espólio com 15 mil documentos, constituídos por correspondências, documentos pessoais, livros e jornais (ver entrevista). Este conjunto de artigos está arquivado na Biblioteca Municipal de Santa Comba Dão, aguardando a sua transferência para as instalações do futuro museu. Há, no entanto, uma divergência fundamental entre a Câmara e os herdeiros de Salazar, que se prende com o local de criação do museu. Enquanto Orlando Mendes defende a sua instalação na casa onde nasceu Salazar, os herdeiros consideram que o melhor local seria a escola-cantina, uma vez que a casa pretendida pelo autarca pertence ao irmão de Rui Lucena e Melo.

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Neste momento, assiste-se a uma constante responsabilização mútua, entre a Câmara e os herdeiros, quanto aos atrasos na concretização do museu, facto que leva alguns habitantes da região a duvidar da sua concretização. Esta é uma questão envolta, desde sempre, numa forte polémica, demonstrativa das dificuldades que os portugueses têm, na hora de lidar com a figura e as acções de Salazar, mais de 32 anos depois da sua morte.

HOJE PRECISÁVAMOS DE DOIS IGUAIS

Natural e residente no Vimieiro, António Morais é um dos indivíduos que se recorda “com muita saudade” dos tempos de Salazar. "Para endireitar o País, hoje precisávamos não de um, mas de dois 'salazares'. Isto está muito mal, a vida está difícil e não há segurança nenhuma. No tempo de Oliveira Salazar passámos por muitas dificuldades e alguma fome, mas havia respeito e muita segurança".

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ELE FOI MUITO MAU PARA OS POBRES

“Sou contra a forma como Oliveira Salazar governou o nosso País durante tantos anos”, afirma Aldina Nogueira, residente em Viseu. Considerando “que uma ditadura é sempre má e prejudica os mais fracos”, esta viseense salienta que o estadista “foi mau para os pobres, as pessoas que mais sofreram na pele o facto de se viver em ditadura e nem sequer se poder falar à vontade. Oliveira Salazar protegeu os ricos e os poderosos e desprezou ou outros”, salientou.

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