Seguro pede diálogo "em tempos de trincheiras" e coragem para fazer "escolhas difíceis"
"Com honestidade, o Estado e as empresas têm de reconhecer que o mercado de trabalho ainda não aprendeu a recompensar adequadamente o conhecimento e a inovação", considerou, no seu discurso do 10 de Junho.
O Presidente da República, António José Seguro, pediu esta quarta-feira diálogo "em tempos de trincheiras" e coragem para se fazer "escolhas difíceis", defendendo mudanças no mercado de trabalho e na habitação que permitam fixar jovens no país.
"Com honestidade, o Estado e as empresas têm de reconhecer que o mercado de trabalho ainda não aprendeu a recompensar adequadamente o conhecimento e a inovação. E isso é inaceitável e temos de o alterar", considerou, no seu discurso do 10 de Junho, em Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, nos Açores.
O chefe de Estado defendeu que Portugal precisa "de políticas que fixem talento em vez de o exportar, de salários que reflitam a produtividade e a qualificação dos trabalhadores portugueses, de um mercado de habitação que permita aos jovens construir uma vida no país onde nasceram ou estudaram, de um Estado que simplifique em vez de complicar, que antecipe em vez de reagir, que planeie além do mandato em vez de gerir apenas a urgência do presente".
Na parte final da sua intervenção na cerimónia militar comemorativa do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, António José Seguro falou da necessidade das "palavras do meio", que "se abrem como convite ao diálogo" em "tempos de trincheiras".
"As ansiedades que sentimos na economia, na geopolítica, na segurança das cidades, na proteção dos mais desfavorecidos, nas questões muito concretas da vida das pessoas reais, criam esse impulso de fechar fileiras, de escolher um lado, de erguer muros", declarou.
O Presidente da República apelou, por isso, à tolerância e à criação de pontes, contra "o vírus da polarização, que tende a substituir a argumentação, o debate e a negociação", referindo que a sua eleição "foi marcada pelo desejo de unir os portugueses e de unir Portugal".
Segundo António José Seguro, este é também um tempo que "pede coragem" para "fazer escolhas difíceis sem ceder ao populismo", para "dizer a verdade mesmo quando é desconfortável" e decidir em função do "interesse de longo prazo mesmo quando o ciclo eleitoral empurra para o curto prazo", e que "exige ambição".
Ao falar da emigração de jovens qualificados, o chefe de Estado sustentou que "o problema não é o talento", contrapondo: "O que se ganhou em qualificação não tem sido acompanhado em remuneração. A habitação é praticamente inacessível e esgota qualquer orçamento familiar".
O chefe de Estado descreveu Portugal como um país que "por vezes parece dominado pelo ressentimento ou em conflito consigo próprio" e que "tem mais do que aquilo que por vezes reconhece", em termos científicos e académicos, empresariais e culturais.
"Ao contrário da ladainha habitual, Portugal não pode cair no fatalismo nem ficar à espera de milagres. O que precisamos é de decisões que dependem inteiramente de nós. Portugal precisa de si próprio na sua melhor versão. E isso está ao alcance de cada um de nós", afirmou.
António José Seguro ressalvou que "unir o país não significa uma unanimidade artificial e indesejável", mas "reconhecer que a pátria é um chão comum" onde há "lugar para todos".
"Não haverá democracia firme e pujante sem partidos, sem reconhecermos que a política, sendo um espaço de confronto, é também, deve ser também um lugar de compromisso. Um compromisso com a tolerância para quem pensa de forma diferente, para quem tem origens distintas, religiões e credos distintos", argumentou.
O Presidente da República apelou, por outro lado, que haja "a humildade de reconhecer que ninguém tem o monopólio das soluções, que nenhuma região ou comunidade é dispensável, que nenhuma geração é proprietária do país" e deve deixá-lo "em melhores condições" para as gerações seguintes.
"Precisamos, acima de tudo, de uma cultura de confiança", acrescentou, manifestando o desejo de que, nesta data, o país possa "renovar a confiança" na sua "capacidade de criar, de inovar e de enfrentar o futuro com coragem".
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