Um cozinheiro na política
Quando encara com alguém menos dotado de raciocínio, António Costa não consegue evitar um tique de aborrecimento: tremem-lhe as pálpebras e as narinas. O que mais detesta é a falta de inteligência – e o bacalhau, que só suporta em pequenas doses em pastéis e pataniscas ou disfarçado em natas.
Nasceu em Lisboa, filho do escritor Orlando Costa, de origem goesa, e da jornalista Maria Antónia Palla. Amanhã, 17 de Julho, comemora 46 anos. No jantar de aniversário, reservado à família e a um restrito grupo de amigos, na sua casa de Fontanelas, Sintra, será servido um dos pratos que António Costa mais gosta de cozinhar: lombo de vaca à Wellington – generosa peça revestida a massa folhada que vai ao forno e fica mal passada por dentro. Não é grande gastrónomo nem voraz apreciador de vinho, mas é um mestre na cozinha. Pede meças, por exemplo, na confecção de tripas à moda do Porto: “Não há melhor a Sul do Douro”, costuma dizer orgulhoso da sua arte.
Viveu pouco tempo com o pai – militante do Partido Comunista até à morte. A mãe, que na altura do 25 de Abril era jornalista de ‘O Século Ilustrado’, deu-lhe a matriz ideológica. Milita no Partido Socialista desde os 14 anos. Fez o Secundário no Liceu Passos Manuel, na zona de São Bento. Formou-se na Faculdade de Direito de Lisboa e fez uma pós-graduação em Estudos Portugueses na Universidade Católica.
É eleito deputado pela primeira vez em 1991, em pleno ‘cavaquismo’. A par da carreira política, inicia-se como advogado num escritório de peso – o de Jorge Sampaio, José Vera Jardim e Júlio Castro Caldas.
Por essa altura o País é surpreendido com a história de Vuvu Grace, uma jovem zairense sem documentos impedida de entrar em Portugal com a filha bebé. Grace e a menina ficariam retidas no aeroporto de Lisboa pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras até que um voo as levasse de volta à incerteza do Zaire. O Partido Socialista fez disto um caso político. Dois advogados, Vera Jardim e António Costa, levantam-se na defesa dos interesses de Grace e da filha. O repatriamento, como pretendia o Ministério Público, ou a permanência em Portugal dependem de uma decisão do Tribunal de Instrução Criminal. A procuradora Judite Resende bate--se contra Jardim e Costa. Em vão. Madrugada alta, o juiz decide que mãe e filha ficam no nosso país. Os advogados sorridentes são esperados à saída do tribunal por um batalhão de jornalistas. Ainda nos anos 90, bateu-se contra a RTP num difícil processo judicial em que eram queixosas a mãe, Maria Elisa e Margarida Marante. As três tinham sido despedidas da estação pública e ganharam em tribunal indemnizações muito confortáveis.
Com António Guterres foi secretário de Estado (entre 1995 e 1997) e ministro dos Assuntos Parlamentares (1997-1999) e ministro da Justiça até à queda do Governo, em Dezembro de 2001.
PUZZLE GIGANTE POR MONTAR
António Costa mudou-se de Lisboa há seis anos para uma luxuosa urbanização em Fontanelas, na zona Norte do concelho de Sintra. É vizinho de António Vitorino, de quem sempre foi próximo no partido, e da actriz Maria Rueff. Tem como hóbi predilecto a montagem de puzzles – quanto mais intrincados melhor. Quando Sócrates o levou para o Governo, em Maio de 2005, para ministro da Administração Interna, António Costa estava a iniciar um puzzle gigante de 24 mil peças. Nunca mais lhe tocou – por falta de tempo.
O FILHO PEDRO QUER SER COMO O PAI
António Costa, filho de escritor e de jornalista, habituou-se a ter livros em casa e ganhou o gosto pela leitura. Lê longamente aos fins-de-semana. Há pouco tempo começou a jogar a ténis. Diz que é “veterano iniciado”. É pai de dois filhos, Pedro, de 16 anos, e Catarina, de 14. O rapaz puxa ao pai: interessa-se pela política, dá opiniões, participou agora na campanha e era visita habitual no ‘quartel--general’ da candidatura instalado na sede distrital do Partido Socialista, em São Pedro de Alcântara. Pedro Costa não tem a mais pequena dúvida sobre o que quer ser quando for grande: político, como o pai – e o pai babado, que já anda nisto há uns anos, até acha que o filho tem jeito.
ADOLESCÊNCIA LISBOETA
António Costa viveu a maior parte da infância e toda a adolescência com a mãe numa casa na rua da Vinha, junto ao Bairro Alto, um dos mais animados de Lisboa
TROCOU LISBOA POR SINTRA
Após o casamento, mudou-se para Carnide, mas regressou ao centro de Lisboa para viver na zona de São Bento. Há seis anos trocou a capital por Fontanelas, concelho de Sintra
NA ASSEMBLEIA MUNICIPAL
O primeiro cargo político desempenhado por António Costa foi na Assembleia Municipal da Câmara de Lisboa, da qual foi membro entre 1982 e 1993
ASCENSÃO COMO GOVERNANTE
A primeira experiência governativa acontece pela mão de António Guterres. Foi secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, depois promovido a ministro da mesma pasta
MINISTRO COM PESO POLÍTICO
António Costa foi um dos principais rostos dos governos de Guterres. Além dos Assuntos Parlamentares, chefiou o Ministério da Justiça no XIV Governo constitucional
BRAÇO-DIREITO DE SÓCRATES
Com a saída de Costa para a Câmara, Sócrates perdeu o seu mais forte aliado no Governo. O ministro de Estado e da Administração Interna era o número dois do Executivo
A EQUIPA DO NOVO PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DE LISBOA
AS ESCOLHAS DE ANTÓNIO COSTA
Manuel Salgado, Ana Sara Brito, Marcos Perestrello, Rosália Vargas e José Cardoso da Silva são os cinco magníficos que António Costa escolheu para resolver os graves problemas da Câmara de Lisboa e iniciar uma mudança política na maior autarquia do País. Os cinco irão assumir pastas fundamentais, entre as quais o Urbanismo, a Acção Social e as Finanças, sendo que esta última vai ser a grande dor de cabeça do novo presidente e, por isso, a elegeu como a sua grande prioridade.
- MANUEL SALGADO - ARQUITECTO
Ao fim de quase 40 anos de actividade dedicada a projectos de arquitectura, Manuel Salgado irá assumir a pasta do Urbanismo. É conhecido sobretudo pelo trabalho no Centro Cultural de Belém (CCB), em parceria com Vittorio Gregotti, e no Estádio do Dragão.
- ANA SARA BRITO - PROFESSORA UNIVERSITÁRIA
Ana Sara Brito será vereadora da Acção Social, área que conhece bem já que desempenhou funções de autarca durante 31 anos em Lisboa. Trasmontana, Sara Brito reside na capital portuguesa há 44 anos. Integrou a comissão política da candidatura de Manuel Alegre à presidência.
- MARCOS PERESTRELLO - GESTOR
António Costa aposta em Marcos Perestrello para o Ambiente. Com 36 anos e licenciado em Direito, o deputado do PS é um dos rostos da Comissão dos Assuntos Constitucionais na Assembleia da República, vice-presidente do grupo parlamentar do PS e membro do Secretariado.
- ROSÁLIA VARGAS - GESTORA PÚBLICA
Rosália Vargas irá gerir o pelouro da Educação. Directora nacional do programa ‘Ciência Viva’ e membro da direcção da Rede Europeia de Museus e Centros de Ciência e do Conselho Nacional de Educação, Rosália irá ser responsável por uma área que muito bem conhece.
- CARDOSO DA SILVA - ADMINISTRADOR
O actual administrador não executivo do Banco de Investimento Imobiliário e do Fundo Margueira irá assumir a pasta mais difícil da autarquia: as Finanças (a principal prioridade de Costa). Com uma dívida camarária que ultrapassa os 1260 milhões de euros, não irá ter uma tarefa fácil.
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