Ventura pede a Montenegro demissão de Luís Neves. Líder do Chega fala em "cumplicidade com o crime organizado"
Carta enviada por Ventura a Montenegro surge depois de ter sido noticiado que foi encontrados nas instalações do empreiteiro amigo de Luís Neves um atrelado com químicos da droga.
O líder do partido Chega dirigiu-se a Luís Montenegro a pedir que Luís Neves abandonasse o cargo de ministro da Administração Interna. André Ventura considera que, caso o ministro se mantenha em funções, isso "afeta muito negativamente a imagem do Governo e arrastá-lo-á irremediavelmente para a cumplicidade criminosa". Ventura reitera que a permanência de Neves no ministério corresponde a uma cumplicidade com "as organizações de tráfico de droga".
"As ameaças sobre órgãos democráticos ou de imprensa, o desrespeito pela lei e a atitude de impunidade e sobranceria, o desvio de bens públicos para a esfera privada e a eventual cumplicidade com o crime organizado na sua forma mais letal e perversa (as organizações de tráfico de droga) traçam um limite que, na minha opinião, nem o primeiro-ministro nem o lider da oposição, podem tolerar", referiu André Ventura, numa carta enviada a Montenegro, este sábado.
A mais recente reação do líder do partido de extrema-direita surge depois de ter sido noticiado que nas instalações do empreiteiro de Barcelos, amigo de Luís Neves, foi encontrado um atrelado com químicos da droga, numa altura em que Neves era diretor da Polícia Judiciária. Foi o mesmo empreiteiro que esteve envolvido nas obras urbanísticas que Neves fez no monte de família em Odemira.
Ao que o Correio da Manhã apurou, o atrelado em questão havia sido apreendido pela PJ num processo de tráfico de droga, do Seixal para Barcelos. De acordo com esta autoridade, a autorização para uso do atrelado foi dada sem conhecimento da direção que combate o tráfico de droga. Já foi aberto um inquérito.
Na carta a que o CM teve acesso, André Ventura levantou várias questões sobre o atual papel de Neves na política: "Como pode o Ministro que tutela as polícias incumprir escandalosamente a lei, em pequenas ou grandes coisas, e arrogar-se disso impunemente? Como pode o Ministro que tutelou a PJ, uma instituição de incontornável prestígio, estar sob suspeita de condicionar essa polícia para proveito próprio e arrastar a sua imagem institucional para o lodo? Como pode ser garantido o regular funcionamento das instituições se há suspeitas de ligação entre o Ministro das polícias e as investigações ao crime organizado mais violento e destruidor? Como que autoridade teremos um Ministro da Administração Interna a coordenar o combate aos incêndios sem qualquer autoridade política?"
Na mensagem, Ventura começou por recordar que o seu partido é o líder da oposição e que, juntamente com o PSD, têm uma "responsabilidade primeira e sagrada de garantir que as instituições e a democracia estão acima e salvaguardadas de qualquer luta ou disputa partidárias".
"As notícias que têm vindo a público comprometem gravemente a confiança dos portugueses as instituições e denotam uma cultura de gangsterismo que não é compatível com o exercício do poder democrático", vincou o líder do Chega.
O líder do Chega subiu de tom e reiterou: "Sr. Primeiro-ministro, o poder político democrático jamais pode estar capturado ou silenciado perante fenómenos criminosos, por muito poderosos que sejam e por muitas cumplicidades que tenham no edifício do Estado. A nossa responsabilidade é não ter medo e fazer as mudanças que tiverem de ser feitas para salvaguardar a transparência e a integridade do Estado".
Ventura aproveitou, ainda, a mensagem para recordar Montenegro da demissão de Miguel Macedo, antigo ministro da Administração Interna, que esteve envolvido numa suspeita criminal durante o mandato de Pedro Passos Coelho e que o líder do Chega considera que o ex-ministro "percebeu que as instituições estão sempre acima da sua vontade e do seu desejo pessoal".
"Se nada for feito, tal pode significar, muito sinceramente, que as instituições em Portugal estão já completamente capturadas por correntes obscuras e subterrâneas de poder e de criminalidade. E nada, nada mesmo, poderá ser tão grave, e ter tanto impacto no futuro, como isto", concluiu.
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