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Correio da Manhã

Política
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A juventude está num estado triste

Carla Mouro, presidente do Conselho Nacional da Juventude, promete pressionar o Governo para olhar o movimento juvenil de outra maneira.
2 de Janeiro de 2006 às 00:00
A juventude está num estado triste
A juventude está num estado triste FOTO: Jorge Paula
Correio da Manhã – Para que serve o Conselho Nacional da Juventude?
Carla Mouro – É importantíssimo! Representa todo o movimento juvenil de âmbito nacional junto do Governo. Somos o interlocutor privilegiado de todos esses jovens junto do Governo, instituições europeias, Nações Unidas e os mais diversos parceiros. Talvez por não ser dada essa importância é que a juventude está onde está.
– E onde é que está?...
– Num estado triste.
– ...Triste?
– Tristíssimo. Os jovens não vêem grandes perspectivas para a vida futura. Não vivem a juventude de uma forma saudável nem correcta. Não têm essa possibilidade e acabam por se refugiar em caminhos indesejáveis, como a toxicodependência e o álcool. E é igualmente preocupante a maioria dos jovens abandonar o curso superior a meio do percurso.
– Uma juventude sem horizonte.
– Completamente. Os jovens não vivem alegres, convictos, com esperança no futuro. As perspectivas de emprego, por exemplo, são quase nulas. A formação e o ensino não estão a ser feitos de forma sustentada. Estamos a formar quadros que não fazem falta ao País. Há, nitidamente, uma sobrecarga nos sectores do Ensino e do Direito e um défice enorme na área da investigação científica.
– Que outros dramas enfrenta esta juventude errante?
– Tantos outros!... A primeira habitação, outro exemplo. Os jovens portugueses são os que mais tarde saem da casa dos pais, porque o acesso a habitação própria é muito difícil. As casas são caras e as regalias para as adquirir são nulas. Depois, temos problemas na saúde. As taxas de incidência do HIV, das doenças sexualmente transmissíveis e da gravidez na adolescência são elevadíssimas. A única questão que é discutida é o aborto, quando o problema deveria centrar-se nos motivos que levam alguém a recorrer à interrupção voluntária da gravidez.
– Nem tudo será mau...
– Claro que não. A juventude está assim, mas é uma juventude que não desiste, que não baixa os braços. Uma juventude que tem valores e sentido de participação cívica que, infelizmente, não tem sido apoiada nem reconhecida pelos governos. A verdade é que a esmagadora do voluntariado em Portugal é desempenhado pelos jovens.
– O que pode fazer o CNJ para inverter o estado das coisas?
– Até agora, sentiamo-nos quase inúteis. Na prática, não existíamos. Só agora, 20 anos após a sua existência, o CNJ ganhou reconhecimento jurídico. O objectivo é fazer lóbi junto dos responsáveis governamentais, no sentido de os alertar para todas estas questões e mostrar que é necessário mudar de rumo. Não vale a pena tomar medidas políticas sem envolver os jovens na sua construção.
– Mesmo com estatuto jurídico, reconhece que será difícil serem ouvidos?
– Sem dúvida. Mas acredito que a pouco e pouco vamos mudar esta forma de estar. Digamos que este é um grande passo para uma longa caminhada.
PERFIL
Carla da Cruz Mouro nasceu a 24 de Junho de 1977 em Castelo Branco.
Habilitações: Finalista do Curso de Relações Internacionais, na Universidade Lusíada de Lisboa.
Funções: Presidente do Conselho Nacional da Juventude deste 2002; presidente do Fórum de Juventude da CPLP desde 2004; colaboradora da UNICEF para as Campanhas de Natal de 1999 e 2000; consultora de projectos a diferentes Programas Europeus para entidades privadas e organizações de juventude.
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