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Correio da Manhã

Política
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"A nossa vida sempre foi muito poupada" (COM VÍDEO)

Cavaco Silva explica a origem das poupanças da família e diz que foi a sua mulher quem mais se irritou com os ataques de que foram alvo. Entrevista exclusiva em directo da campanha.
21 de Janeiro de 2011 às 00:30
CAVACO SILVA, ENTREVISTA, ELEIÇÕES, PRESIDENCIAIS
CAVACO SILVA, ENTREVISTA, ELEIÇÕES, PRESIDENCIAIS FOTO: António Pedrosa

Correio da Manhã – Sai desta campanha com relações mais difíceis com o Governo de José Sócrates?

Cavaco Silva – Não, não me parece. Esta campanha teve alguns aspectos chocantes. Houve alguma baixeza da parte de alguns agentes políticos. O que mais choca é que aqueles que me atacam sabem que estão a ser desonestos. É o ponto mais baixo a que uma pessoa pode descer. Mas não deixarei de ser Presidente de todos os portugueses.

– Surpreendeu-o que Manuel Alegre tenha cavalgado a onda do chamado caso BPN?

– A campanha presidencial de há cinco anos foi dura mas teve dignidade. Houve respeito e ocorreram aqui algumas mudanças que me surpreenderam. Não consigo compreender a atitude de algumas pessoas por quem tinha consideração e estima. Pode ter resultado de apoios esquisitos...

– Refere-se ao apoio do Bloco de Esquerda a Manuel Alegre?

– Pode ter resultado de apoios esquisitos. Mas o melhor é pensarmos que estamos a dois dias do fim da campanha. Espero que no próximo domingo as pessoas venham votar. Tenho notado uma grande repulsa da parte da população, revolta mesmo, em relação ao comportamento de alguns candidatos. Levo muito a sério este meu papel de candidato à Presidência da República e não receio o julgamento do povo português no próximo domingo

– Porque é que manteve perto de si pessoas como Fernando Fantasia, hoje na comissão de honra da sua candidatura, ou outras personalidades ligadas ao BPN?

– O Fernando Fantasia nasceu em Boliqueime. Conheço-o desde criança, é uma pessoa por quem tenho um imenso respeito e tenho a certeza que é extraordinariamente séria. É meu vizinho. Não o conheço de agora, conheço talvez desde os 5, 6 anos. Da praia onde eu vou.

– Ficou triste com estes ataques?

– É de facto muito estranho que alguns tenham tentado encontrar como tema de campanha a aplicação das poupanças que eu e a minha mulher fizemos há 11 anos. Nós, que temos uma vida muito poupada. Tanto eu como a minha mulher temos uma origem humilde, ficámos talvez marcados por isso. Ao longo da vida, decidimos fazer todos os meses alguma poupança. Começámos logo por poupar bastante porque fui mandado para África – eu como alferes e ela como professora – e não tínhamos hipótese de gastar dinheiro.

– Porque é que surgem estes ataques durante a campanha?

– Há 11 anos resolvemos depositar as nossas poupanças num banco, já tínhamos parte aplicada noutros três. Eu era professor e ela também professora – estamos a falar de algo que aconteceu seis anos antes de eu ser Presidente da República.

– Mas qual é a intenção?

– Apesar de os números das minhas poupanças nos bancos estarem todos no Tribunal Constitucional, ninguém foi verificar quais são os prejuízos que eu e a minha mulher temos em aplicações noutros títulos, noutros bancos. Quando tentaram fazer política com as minhas poupanças, foi principalmente a minha mulher que se irritou e disse: ‘tiras imediatamente tudo o que está lá’. Fizeram-me aqui uma desonestidade que ultrapassa todos os limites, porque a minha vida foi investigada ao mínimo pormenor quase desde que nasci. Tentaram tocar na minha honorabilidade. Os ataques que me fizeram são um sinal de desespero, foram muito mal aconselhados.

– Tem alertado para a possibilidade de uma crise política em 2011. O que significa isto exactamente?

– Um Presidente tem de estar preparado para situações imprevisíveis e estas podem surgir no campo político, como no campo económico, financeiro ou no campo social. É aí que o Presidente da República deve ter a experiência, a ponderação para analisar a situação e tomar as decisões mais adequadas ao interesse nacional. Não quero, nem devo, antecipar crises políticas. Não posso esquecer que ainda sou Presidente e não devo especular sobre a situação política do país.

– Diz que falou de ideias. Os outros candidatos também o fizeram, nomeadamente Manuel Alegre?

– O que se nota claramente nos outros candidatos é que não conhecem a situação do país. Aliás, não falam sobre a situação do país nem sobre o rumo que Portugal deveria seguir no futuro. Mas a minha principal obrigação é falar sobre as ideias que tenho para o país.

– Se Portugal tiver de recorrer ao Fundo Europeu e ao FMI, já disse que isso será um falhanço do Governo. Quais serão as consequências políticas desse falhanço?

– Tenho a informação do lado do Governo – e o próprio Governo o disse publicamente – que está a trabalhar para que não seja necessário chamar o Fundo de Estabilização Europeia, que implicaria a vinda do Fundo Monetário Internacional, duas instituições que iriam impor condicionantes no funcionamento da política económica. Não devo especular nesta fase sobre essa possibilidade. O que sabemos é que se trata de um objectivo claramente avançado pelo Governo – e se isso viesse a acontecer, então haveria o não cumprimento de um objectivo. O primeiro órgão de soberania que deve analisar a situação é a Assembleia da República, perante a qual o Governo responde politicamente.

– Porque é que os mercados não parecem ter grande confiança na economia portuguesa?

– Porque o nosso endividamento externo atingiu níveis insuportáveis, de uma dimensão semelhante ou até superior à produção de todo um ano. Digo há vários anos que pode surgir um momento em que os nossos credores se interroguem sobre a nossa capacidade para cumprir os compromissos que assumimos no passado. Houve aqui responsabilidades também das instituições europeias: na sequência da crise de 2008, estimularam os países a endividarem-se para promover a recuperação económica. A dúvida que existe em relação a Portugal poder cumprir os seus compromissos até pode ser injusta, mas é a realidade dos factos. Fala-se de mercados de uma forma muito geral, mas operam com aqueles que nos emprestam dinheiro.

– A União Europeia está a fazer tudo o que pode ou deve?

– A Europa talvez pudesse ter feito mais, mas não se preparou nunca para que uma situação como esta pudesse ocorrer. Por isso, não realizou aquilo que lhe competia realizar nos termos do tratado: acompanhar regularmente a situação orçamental dos Estados-membros e tomar as medidas necessárias para corrigir a situação de défice excessivo. Não houve também a coordenação que estava prevista nos tratados, onde se diz que a política de cada Estado-membro é uma questão do interesse comum – e essas políticas orçamentais devem ser coordenadas ao nível do Conselho.

– Não estaríamos melhor com o FMI, ou seja, a pagar taxas de juro mais baixas sobre a dívida soberana? Ainda na quarta-feira as taxas voltaram a ultrapassar os 7%...

– Não devo pronunciar-me sobre essa questão. Embora seja candidato, não deixo de ser Presidente da República. Como sabe, na qualidade de técnico do Banco de Portugal participei nas negociações com o FMI em 1978 e 1982. Mas não haja a menor dúvida de que se o Fundo de Estabilização Europeia entrar com o FMI em Portugal irá impor algumas condicionantes. Não sei se os técnicos que vão chegar aqui terão o devido conhecimento da realidade portuguesa – nós temos largos sectores de portugueses que se encontram na margem de uma vida digna. Receio que as medidas impostas possam não ser devidamente suportadas por algumas camadas da população portuguesa. Nesta fase, tenho de acreditar que o Governo tem sucesso no cumprimento dos objectivos a que se comprometeu.

– Acredita que o Governo está a executar o Orçamento de acordo com o prometido?

– A dívida pode ser colocada de duas formas: por leilão ou bilateralmente. Os países, consoante as circunstâncias, recorrem a uma ou a outra forma.

– Não o preocupa o modo como o Governo está a vender a dívida pública? Essa informação tem sido prestada ao Presidente da República e à Oposição?

– Penso que é importante que os líderes da Oposição conheçam bem a situação financeira portuguesa. Quando chamei os partidos políticos para uma conversa muito séria antes do Orçamento, não deixei de lhes fornecer toda a informação de que dispunha, tanto do Governo co-mo do Banco de Portugal, sobre as nossas responsabilidades para com o estrangeiro. Não deixei de lhes dar esses dados quantitativos, para que estivessem muito conscientes do que poderia acontecer a Portugal se houvesse uma crise política. Porque era isso que estava em causa: era uma crise política, a possibilidade de entrarmos em governo de gestão. O Presidente não pode dissolver a Assembleia da República pelo menos até 9 de Março próximo, e Portugal não poderia aguentar de forma alguma. Seria o colapso do funcionamento da nossa economia.

– É essa a crise política a que se tem referido?

– Não, o que me preocupa neste momento é uma crise política que possa conduzir a um governo de gestão. Tal como entendo, como candidato, que não podemos deixar arrastar esta campanha durante mais algumas semanas. Por isso, digo aos portugueses que é preciso tomar a decisão já no próximo domingo, para que as atenções possam estar concentradas nos graves problemas que enfrentamos. Não diria a verdade se dissesse que o ano de 2011 vai ser melhor. O ano de 2011 vai ser um ano difícil para todos.

– Teme a abstenção dos portugueses no próximo domingo?

– Tenho apelado muito para que os portugueses não deixem de votar. Está em causa o futuro de Portugal e não podem ficar indiferentes em relação à situação em que o país se encontra. Abster-se não é a resposta. É uma obrigação de todos na situação particularmente difícil ir fazer a sua escolha. A escolha do Presidente neste momento é mais importante do que outras escolhas que aconteceram no passado.

"NÃO FALO SOBRE OUTROS CANDIDATOS"

CM – Qual é o balanço que faz? Esta foi uma campanha suja?

C. S. – Não falo sobre os outros candidatos. Estive na campanha com muito respeito pelo povo português, falando sobre os problemas que dizem respeito a uma candidatura à Presidência da República. Ouvi os portugueses e tomei notas com frequência.

"SERIA OBRIGADO A ASSINAR DOCUMENTO DO CASAMENTO ENTRE HOMOSSEXUAIS"

CM – Como responde a alguns eleitores católicos que o criticam por ter aprovado a lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo?

C.S. – Todos os portugueses sabem quais são as minhas convicções, mas eu sou PR e tenho de garantir a unidade do Estado. O que é que Portugal ganharia se eu tivesse vetado o diploma? Essa é a questão. O diploma teria sido confirmado, como foi expressamente afirmado. E eu seria obrigado a assinar. Tentei explicar a natureza da minha decisão, surpreende-me que alguns não tenham feito a mesma pressão sobre aqueles que aprovaram a legislação e sobre os que na campanha disseram que iriam aprovar o que vieram a aprovar.

"FALEI SOBRE A ESPERANÇA QUE PODEMOS TER"

CM – Houve falta de ideias nesta campanha presidencial?

C.S. – Falei ao povo português da situação do País, que todos sabemos ser grave. Falei sobre os caminhos que devemos percorrer para vencer as dificuldades, com destaque para o flagelo do desemprego, o excesso de endividamento com que nos deparamos. Falei também sobre a esperança que podemos ter para o futuro, apesar de tudo, sobre as exigências que se colocam a um Presidente da República nestes tempos especialmente complexos que o País atravessa, sobre a magistratura de influência que pode ser utilizada.

"PORTUGAL TEM A SOBERANIA PARTILHADA"

CM – Portugal já perdeu a soberania orçamental?

C.S. – Como membro da União Europeia nós encontramo-nos num sistema de soberania partilhada. Quando um país se encontra numa situação difícil para o seu financiamento externo, as restrições que lhe chegam dos mercados são mais fortes do que a normal partilha de soberania orçamental dentro da União Europeia. Há restrições que resultam da dificuldade do Estado e dos bancos portugueses para recorrerem aos mercados financeiros internacionais, em resultado do desequilíbrio das nossas contas externas.

PERFIL

Aníbal Cavaco Silva nasceu a 15 de Julho de 1939, em Boliqueime, Loulé, no Algarve. Licenciado em Finanças pelo Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras, em Lisboa, é doutorado em Economia pela Universidade de York, Reino Unido. Foi ministro das Finanças no governo de Sá Carneiro (1980--81). Presidiu ao PSD entre 1985 e 1995 quando foi também primeiro-ministro. Foi eleito Presidente da República em 9 de Março de 2006.

ENTREVISTA COM DIREITO A FILME

A entrevista a Cavaco Silva foi realizada e produzida na quarta--feira, quando faltavam apenas dois dias para o final da campanha. Nessa altura, o candidato que também é Presidente da República já tinha percorrido 1500 quilómetros, só no Continente, sem contar com as deslocações aos Açores e à Madeira. Como dizia o próprio, sem esconder o cansaço, "havia quem pudesse pensar que ficaria acomodado no Palácio de Belém, mas não." Hoje, tem o grande dia final num comício em Lisboa.

CAVACO SILVA ENTREVISTA ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS
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