O Presidente da República, Jorge Sampaio, inicia amanhã uma visita de Estado de três dias à Argélia, acompanhado por uma delegação empresarial de 56 elementos interessada em investir neste país do Norte de África.
A deslocação de Sampaio, a segunda de um Presidente português à Argélia, atesta, segundo fontes da Presidência, a importância atribuída às relações com os países árabes e ao Estado argelino, que detém uma posição cimeira não só a nível do Magrebe, mas de todo o continente africano.
"Por causa do 11 de Setembro e dos problemas do terrorismo não vamos deixar de manter relações com os árabes", disse à fonte diplomática, adiantando que a proximidade geográfica facilita o relacionamento com a Argélia, que poderá atingir o nível das relações com Marrocos ou a Tunísia, dois outros países do Magrebe.
O primeiro chefe de Estado português a visitar a Argélia foi António Ramalho Eanes, há precisamente 21 anos, em Dezembro de 1982, durante a presidência de Chadli Bendjedid, quando o regime argelino era ainda de partido único, no poder desde a independência de França, em 1962.
De então para cá, apesar do acordo de compra de gás natural à Argélia, assinado em 1994 e que poderia ter aberto uma nova página no relacionamento económico bilateral, as relações entre os dois países mantiveram-se aquém das potencialidades e mesmo vontades mútuas.
A violência fundamentalista islâmica, que assolou a Argélia sobretudo a partir de 1992 e só começou a dar sinais de abrandamento no início de 2001, com a Lei da Concórdia Civil, foi um dos entraves ao relançamento das relações luso-argelinas, mas não pode continuar a servir de justificação ao afastamento entre os dois países, equacionou fonte da presidência portuguesa.
Quando, em 2000, Portugal deteve a presidência da União Europeia (UE) e fez questão em avançar com a realização da cimeira África-Europa, a Argélia deu um importante contributo para a viabilização da iniciativa, segundo a mesma fonte.
Por outro lado, a Argélia assinou em 2002 um acordo de parceria com a UE e está presente em fóruns em que Portugal também participa, nomeadamente no Processo de Barcelona e no Diálogo "5 5", que engloba os cinco países mediterrânicos do Sul da Europa e outros tantos do Norte de África. Neste contexto, a Presidência portuguesa acolheu favoravelmente o convite que lhe foi dirigido, ainda em 2002, para visitar a Argélia, mas a deslocação foi duas vezes adiada, primeiro devido à ofensiva militar norte-americana e britânica contra o Iraque e depois em consequência do sismo que atingiu a região da Grande Argel, provocando mais de 2000 mortos e cerca de 10.000 feridos.
Além do significado político da própria visita, Sampaio optou por lhe dar um cunho marcadamente económico, fazendo-se acompanhar por 56 empresários já com negócios na Argélia ou simplesmente interessados em investir no país, com vasto campo de intervenção na área das obras públicas.
UM FOCO DE INSTABILIDADE ÀS PORTAS DA UE
O país que Sampaio vai visitar conhece bem o terrorismo associado ao extremismo islâmico, que o atingiu bem antes do 11 de Setembro, e continua nos dias de hoje, embora com menor intensidade, a marcar a sangue a História da antiga colónia francesa.
Tudo começou no início dos anos 90, quando o regime apoiado na força militar travou a ascensão ao poder de um partido islamista, a Frente Islâmica de Salvação (FIS), ao anular a sua anunciada vitória eleitoral. O processo democrático foi suspenso e a FIS ilegalizada, mas da clandestinidade iriam irromper forças bem mais radicais, como o Exército Islâmico de Salvação (AIS), braço armado da FIS, e o Grupo Islâmico Armado (GIA), que ao declararem guerra ao regime inauguraram uma era de terror, com o trágico balanço de mais de cem mil mortes.
As forças governamentais reagiram com um brutal aumento da repressão à fúria assassina da guerrilha islâmica, que não poupou a população, a principal vítima desta guerra civil não declarada. O banho de sangue prosseguia quando Abdelaziz Bouteflika foi eleito presidente em Abril de 1999, com a promessa de pôr fim à violência e promover a reconciliação nacional. Uma promessa que iria traduzir-se na implementação de um Plano de Concórdia Nacional, incluindo a oferta de uma amnistia a militantes islâmicos.
O Exército Islâmico de Salvação aceitou o cessar-fogo e acabou por dissolver-se. Mas a esperança de paz da martirizada população argelina foi frustrada, pois tanto o Grupo Islâmico Armado, responsável pelos mais sangrentos atentados e assassinatos de civis, como o denominado Grupo Salafita para a Prédica e Combate rejeitaram a oferta de Bouteflika. É certo que a vaga de terror decresceu, mas, segundo a Amnistia Internacional, cerca de cem pessoas morrem em cada mês às mãos dos grupos armados e também das forças de segurança e das milícias armadas pelo Estado. Embora admitindo que a situação dos Direitos Humanos melhorou na Argélia, a Amnistia nota que ainda suscita inquietação.
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