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Correio da Manhã

Política
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Abstenção e indecisos ameaçam referendo

A menos de um mês da realização do referendo nacional sobre o aborto, a abstenção e o número de indecisos continuam a subir a passos largos. Isto apesar de as campanhas contra e a favor da interrupção voluntária da gravidez estarem na rua há cerca de um mês e meio.
20 de Janeiro de 2007 às 00:00
O ‘não’ teve uma redução de 5,1 pontos percentuais e o ‘sim’ de 1,1 pontos
O ‘não’ teve uma redução de 5,1 pontos percentuais e o ‘sim’ de 1,1 pontos FOTO: D.R.
De acordo com uma sondagem CM/Aximage, realizada entre os dias 16 e 18 de Janeiro, a abstenção atingiu os 45 por cento, enquanto o número de votantes caiu para os 55 por cento. Uma tendência que a manter-se poderá ameaçar o referendo, já que se participarem menos de metade dos eleitores o resultado eleitoral perde a validade jurídica.
Mas é o número de indecisos que sofre a maior subida, ao passar, num espaço de dez dias, de 8,1 para 14,6 por cento. Curiosamente é o eleitorado do CDS-PP que assume uma posição contra o aborto, o mais indeciso: 32,8 por cento. Seguido do eleitorado do PSD com 18,6 por cento.
E se a maioria dos abstencionistas (56,2 por cento) é jovem, a maioria dos indecisos (22,2 por cento) tem idades entre os 30 e os 44 anos.
Nesta consulta popular o ‘sim’ mantém a vitória no referendo com 55,6 por cento das intenções de votos, embora apresente uma redução de 1,4 pontos percentuais. O mesmo acontece com o ‘não’, que perde 5,1 pontos percentuais, recolhendo ape-nas 29,8 por cento das intenções de voto.
Apesar de o aborto ser um tema fracturante na sociedade, o ‘sim’ e o ‘não’ parecem estar, segundo a sondagem, a perder votos para os abstencionistas e indecisos. Mas caso o ‘sim’ vença com menos de 50 por cento dos votantes registados, ou seja, sem um resultado vinculativo, o PS já apontou uma solução: a via legislativa.
Questionado sobre os resultados desta sondagem, João Paulo Malta, do movimento ‘Não Obrigada’, considerou que a abstenção “é um problema de cidadania” que deve ser combatido já que a questão em causa “tinha a obrigação de mobilizar todos os cidadãos.
Também Ana Sara Brito, do movimento ‘Cidadania e Responsabilidade pelo Sim’, considerou o combate à abstenção prioritário: “O ‘sim’ deve apelar ao povo português para ir votar, porque este não é um problema da mulher, é um problema da sociedade”.
FICHA TÉCNICA
OBJECTIVO: Interrupção Voluntária da Gravidez
UNIVERSO Indivíduos inscritos nos cadernos eleitorais em Portugal em lares com telefone fixo.
AMOSTRA Aleatória estratificada( região, habitat, sexo, idade, instrução e voto legislativo), polietápica e representativa do universo, com 500 entrevistas efectivas (275 a mulheres) Proporcionalidade: A proporcionalidade pelas variáveis de estratificação é obtida com reequilibragem amostral Técnica entrevista telefónica C.A.T.I. (computer assisted telephone interview) Taxa de resposta: 75 por cento. Desvio padrão máximo de 0,02.
REALIZAÇÃO Entre 16 e 18 de Janeiro de 2007, para o Correio da Manhã pela Aximage Comunicação e Imagem Lda, sob a direcção técnica de Jorge de Sá e João Queiroz.
O ‘CM’ mostra-lhe os argumentos de figuras públicas a favor e contra a interrupção voluntária da gravidez até às dez semanas
PORQUE SIM
SÓNIA FERTUZINHOS, DEPUTADA DO PS: 'A ACTUAL LEGISLAÇÃO NÃO É EFICAZ'
“Vinte e oito anos depois da aprovação da actual lei e oito depois do referendo, todos já perceberam que a legislação não é eficaz [...] resigna-se ao problema do aborto clandestino. Quando é aplicada [ a lei], nos julgamentos, choca a sociedade. [...] Se provoca um mal maior do que aquele que se quer evitar, então só há um caminho: o de uma legislação mais equilibrada.”
PORQUE NÃO
JOÃO ALMEIDA, LÍDER DA JP: 'ABORTO TORNA-SE OFICIAL'
“Voto não como votei há oito anos. A investigação científica reforça a ideia de vida intra-uterina até às dez semanas [...]. Há uma alteração de fundo no projecto [PS]. Não haverá intervenção clínica e o aborto [se o ‘sim’ ganhar] passa a ser feito em estabelecimento autorizado. Se o ‘sim’ ganhar o aborto não é só liberalizado como se torna oficial.
PGR DEFENDE MORGADO
O ex-líder do CDS-PP Paulo Portas lançou a polémica ao questionar o procurador-geral da República, Pinto Monteiro, sobre a participação da magistrada Maria José Morgado num colóquio do grupo parlamentar do PS, intitulado “Sim à despenalização” do aborto.
Pinto Monteiro considerou que “essa intervenção foi feita na qualidade de cidadã e de jurista e não na qualidade de magistrada do Ministério Público, tendo, aliás, participado na mesma [conferência] outros especialistas na matéria”.
Morgado também assinalou ao CM que tinha participado na qualidade de técnica. Portas contra-atacou, sublinhando que a resposta do PGR permite “duas leituras” sobre o estatuto dos magistrados do Ministério Público.
O PSD, através de Marques Guedes, também contestou a participação de magistrados em acções de campanha, assinalando que “se perdeu a decência”. O líder centrista, Ribeiro e Castro, classificou a resposta do PGR “insatisfatória” e PS e o BE defenderam a magistrada.
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