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Correio da Manhã

Política

AGRICULTURA DE LUTO

A Agricultura está de luto com o falecimento da figura que liderou 24 anos a Confederação de Agricultores Portugueses (CAP) e se notabilizou na implementação do associativismo agrícola, no pós-25 de Abril.
27 de Setembro de 2003 às 00:00
O corpo de José Manuel Casqueiro, que morreu quinta-feira no Brasil, vítima de ataque cardíaco, será cremado hoje e as suas cinzas serão divididas entre a sua casa naquele país e a sua quinta em Rio Maior. A informação foi dada ontem ao CM em Vila Velha, Brasil, pela viúva, Priscila Casqueiro, durante o velório.
Priscila Casqueiro declarou ao CM que a decisão da cremação e da divisão das cinzas tinha sido expressa por Casqueiro, numa última demonstração de amor aos dois países. Faleceu em Guarapari, no litoral do Espírito Santo, onde vivia há pouco mais de dois anos e onde estava a montar uma empresa de exportação de artesanato e móveis rústicos regionais.
Naturalmente emocionada, Priscila Casqueiro disse ao nosso jornal que José Manuel Casqueiro andava entusiasmado com a ultimação da empresa de artesanato e com uma outra paixão sua, a criação de aves.
Tanto que estava a pensar adiar a viagem programada para Portugal, para se poder dedicar totalmente aos novos empreendimentos. Outro motivo que o fazia sentir-se tão bem e tão preso ao Brasil era a pequena Crystal, a filha que teve há um ano e meio com Priscila, a brasileira por quem se apaixonou e com quem refez a sua vida afectiva. Estava prevista para o final da noite de ontem a chegada a Vila Velha da filha portuguesa de José Manuel Casqueiro, Cristina, que acompanhará a cremação e levará para Rio Maior as cinzas do pai.
O ANTI-REFORMA AGRÁRIA
José Manuel Casqueiro, 59 anos, natural da Várzea, Santarém, foi deputado independente pela AD e pelo PSD. Mas não foi no Parlamento que se notabilizou. A contestação às ideias do PCP sobre a reforma agrária no pós-25 de Abril e a defesa do associativismo empresarial agrícola ligaram-no ao sector ao longo da vida. E cedo se iniciou na actividade. Aos 17 anos já era regente agrícola e aos 18 começou a trabalhar no Centro Nacional de Fruticultura, em Alcobaça. Conheceu o general Spínola, na Guiné, na guerra colonial, e aí incentivou os locais a adoptar novas formas de exploração agrícola. Católico praticante, foi dirigente da Juventude Agrária Católica (JAC) e dizia-se um opositor passivo ao regime do Estado Novo. Foi secretário-geral da Confederação dos Agricultores Portugueses (CAP) durante 24 anos onde se tornou uma das mais importantes figuras do sector desde 1974. Faleceu quinta-feira no Brasil, país que adoptou no último ano e meio de vida.
SEVINATE PINTO: O PESAR DO MINISTRO
“A vida de José Manuel Casqueiro fica ligada a uma parte importante da história do associativismo agrícola português das últimas duas décadas”. O ministro da Agricultura, Sevinate Pinto, exprimiu ontem à família, em nome pessoal e da tutela, o seu pesar pelo falecimento prematuro e inesperado de José Manuel Casqueiro.
UM HOMEM DE CORAGEM (LUÍS MIRA, SEC-GERAL DA CAP)
O secretário-geral da Confederação de Agricultores Portugueses (CAP) lembrou José Manuel Casqueiro como “um homem de coragem”. “Foi uma figura de destaque nos tempos complicados do 25 de Abril “, afirmou à RR. Luís Mira recordou-o como “uma pessoa de grande persistência”. A CAP ficou “consternada”.
UMA PERDA SÚBITA (RUI BARREIROS, PRES. C.M. SANTARÉM)
O presidente da Câmara de Santarém lamentou ontem a morte do ex-dirigente da CAP, apesar das divergências "profissionais e políticas" que mantinham. "Não podemos deixar de lamentar esta perda súbita" de uma figura "proeminente de uma das confederações de agricultores mais proeminentes do País e com uma intervenção cívica que deve ser realçada".
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