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MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

Almirante fez pareceres decisivos

Documentos de Rogério d’Oliveira terão influenciado mudança de submarino francês para alemão. Militar diz que nunca fez pressão.

07 de abril de 2010 às 00:30

Os pareceres técnicos do contra-almirante Rogério d’Oliveira para o German Submarin Consortium (GSC), construtor alemão a quem o Governo PSD-CDS/PP adjudicou os submarinos, terão tido uma influência decisiva na alteração dos critérios que deram a vitória ao GSC, em detrimento dos franceses da DCN-I. Ao que o CM apurou, dois pareceres assinados por aquele militar reformado, datados de Junho de 2001, circularam entre os órgãos com poder de decisão nos Governos de António Guterres e de Durão Barroso e na Comissão Parlamentar de Defesa .

As datas dos pareceres e a data de um memorando sobre a comparação das propostas de alemães e franceses, a que o CM teve acesso, são importantes. Desde logo, os dois pareceres, um redigido em português e outro em inglês, datam de 21 de Junho de 2001, mês anterior à tomada de posse de Rui Pena como ministro da Defesa do Executivo PS. E depois o memorando datado de 23 de Janeiro de 2003, cerca de dois meses antes de o Governo PSD-CDS/PP ter aprovado alterações aos critérios de análise que permitiriam ao GSC vencer a DCN-I.

Um parecer do contra-almirante, que está sob suspeita da Procuradoria de Justiça de Munique, recorda que 'o GSC é o sucessor do Consórcio Meko, construtor das fragatas da classe ‘Vasco da Gama’, presentemente o orgulho da Marinha, o qual contribuiu com uma ajuda efectiva (cerca de 1/5 do valor da fragata oferecida pela RFA), tornando viável a sua construção'. E remata: 'Cita-se este facto incidentalmente não para valorizar a proposta do GSC, mas tão somente para salientar o seu merecimento, além do direito, a ter uma avaliação objectiva, ponderada, imparcial e justa'.

Ontem, Rogério d’Oliveira foi categórico: 'Nunca fiz absolutamente nenhuma pressão sobre responsáveis políticos'. Mas salvaguarda: 'Admito que os meus argumentos tenham sido utilizados na discussão'. O CM contactou Rui Pena e Paulo Portas, ministros da Defesa nos Governos de Guterres e Barroso, mas não obteve respostas.

'LUVAS' DE 1,6 MILHÕES SOB SUSPEITA

A compra dos submarinos está a ser alvo de investigações em Portugal e na Alemanha. No essencial, suspeita-se do pagamento de ‘luvas’ de 1,6 milhões de euros a vários intervenientes na operação, entre os quais o cônsul Jürgen Adolff. Segundo os alemães, o contra-almirante Rogério d’Oliveira, consultor do GSC quando era reformado, terá recebido um milhão de euros em ‘luvas’. O militar nega.

PORMENORES

PORTUCALE

O negócio dos submarinos está em investigação desde 2006, depois de ter sido extraída uma certidão do ‘caso Portucale’.

DOIS PROCESSOS

O Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP) tem em curso duas investigações: as contrapartidas e a aquisição dos submarinos.

ACUSAÇÃO A GESTORES

No âmbito do processo das contrapartidas, o Ministério Público acusou 10 gestores (sete portugueses e três alemães) de falsificação de documentos e burla qualificada. E pede uma indemnização de cerca de 34 milhões de euros.

DETIDO NA ALEMANHA

Klaus Lesker, ex-administrador da Ferrostaal, foi detido preventivamente, em Março, pelas autoridades alemães, por suspeita de pagamento de subornos.

DEFESA COM RAZÃO

O Supremo Tribunal Administrativo deu razão ao Ministério da Defesa, então liderado por Paulo Portas, no recurso da DCN-I contra a decisão de adjudicar o concurso ao GSC. Os franceses acusavam o Ministério de ter 'diversas ilegalidades'.

MUDANÇAS DERAM NOVO VENCEDOR

A grande reviravolta no vencedor do concurso de aquisição dos submarinos ocorreu a 15 de Abril de 2003, quando o Governo PSD--CDS/PP introduziu alterações na análise das propostas.

No essencial, em Julho de 2001, mês seguinte à data dos pareceres do contra-almirante Rogério d’Oliveira, a DCN-I tinha a melhor proposta, com um preço inferior em 32,8 milhões de euros. Só que, em Novembro de 2003, após as mudanças introduzidas, o Governo adjudicou ao GSC, por proposta do então ministro da Defesa Paulo Portas, a compra dos navios. Para esta mudança no vencedor do concurso contribuiu a nova proposta do GSC, que tinha um preço inferior de 106 milhões de euros.

A Resolução do Conselho de Ministros nº 67, de Maio de 2003, consagra as alterações introduzidas pelo Executivo, depois de o Programa Relativo à Aquisição dos Submarinos (PRAS) ter sido 'objecto de estudo exaustivo por parte do Governo e, em especial, por parte do Ministério da Defesa Nacional, com vista à determinação das coordenadas futuras'.

Desse estudo resultou três alterações: a redução da compra de três para dois submarinos, com opção de aquisição de um terceiro; o convite a GSC e a DCN-I para a descida do preço final e o desenvolvimento de operações de contrapartidas para a economia portuguesa que não estavam previstas ou necessitavam de modificações.

Quando as novas propostas foram apresentadas, verificou-se, desde logo, alterações significativas nos preços: o GSC aumentou o preço final de 822,7 milhões de euros para 842,5 milhões, mais 2,4%, mas a DCN-I subiu de 789,9 milhões de euros para 948,7 milhões, mais 20,1%.

ACTA ESTÁ NA COMISSÃO

A acta da aprovação do programa de contrapartidas, que o ‘CM’ ontem disse que estava desaparecida, está na Comissão Permanente de Contrapartidas (CPC).

Pedro Catarino, presidente da CPC, garantiu ao ‘CM’ que 'a acta existe'. Entre 2003 e 2005, Pedro Brandão Rodrigues, do CDS-PP, foi presidente da CPC.

CONSÓRCIO DAVA INFORMAÇÃO

O contra-almirante Rogério d’Oliveira garante que fez os pareceres técnicos para o GSC com base nos elementos que o consórcio alemão lhe dava.

ELEMENTOS CONFIDENCIAIS

Rogério d’Oliveira diz que os pareceres que fez para o GSC eram confidenciais, mas admite que 'alguém pode ter feito chegar os documentos a outras pessoas.

CONTRAPARTIDAS EM CAUSA

O contra-almirante na reforma critica o peso excessivo atribuído às contrapartidas na decisão do vencedor, mas garante que nunca participou nessas negociações.

PARECER

'O programa [de compra dos submarinos] enferma de falta de objectividade e a Comissão não usou métodos rigorosos de análise de custo/benefício. A metodologia seguida caracteriza-se de arbitrariedade e obscuridade.'

'A construção de submarinos modernos envolve riscos que podem comprometer o pleno êxito do empreendimento, logo a eliminação ou redução destes riscos deve ser um dos objectivos no processo de aquisição. '

'Se os factores de avaliação fossem determinados por critério lógico e equilibrado, a proposta do GSC seria globalmente e substancialmente superior à da DCN-I, não só porque apresenta solução de melhor eficácia e segurança em relação ao preço, como também merece a mais alta credibilidade em todos os factores de avaliação, inclusivamente o de contrapartidas.'

DOCUMENTOS EM CAUSA

Os pareceres técnicos do contra-almirante Rogério d’Oliveira, a que o ‘CM’ teve acesso, têm, no essencial, a mesma informação. Os argumentos incidem nas críticas à proposta dos franceses da DCN-I e na valorização técnica dos navios dos alemães do GSC.

DEPUTADOS QUEREM OUVIR EMBAIXADOR

A Comissão Parlamentar de Defesa quer ouvir na próxima semana o presidente da Comissão Permanente de Contrapartidas (CPC), o embaixador Pedro Catarino, sobre o relatório anual de execução das contrapartidas militares. Se o relatório chegar ao Parlamento até sexta-feira, a audição do embaixador, apurou o CM, ficará marcada para dia 13. Data em que o BE deverá propor na conferência de líderes uma comissão de inquérito às contrapartidas.

Caso o relatório, que já está na posse do Ministério da Defesa, não chegar ao Parlamento esta semana, a audição de Pedro Catarino será adiada uma semana, pois os deputados querem tempo para analisar o documento. A comissão pretende ouvir ainda o ministro da Defesa, Augusto Santos Silva, sobre o relatório.

Segundo avançou ontem o presidente da comissão de Defesa, José Luís Arnaut, os deputados vão promover ainda audições sobre as baixas taxas de execução das contrapartidas.

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