Barra Cofina

Correio da Manhã

Política
8

Autarcas usaram junta para comprar relógio

"Queríamos homenagear Ferreira Torres enquanto presidente da câmara, e não como cidadão. Nunca pensei que era ilegal, senão não tínhamos passado um cheque da junta para contribuir para a prenda." Foi assim que Manuel Vieira, presidente da junta de Paços de Gaiolo – um dos 25 autarcas de Marco de Canaveses que começaram ontem a ser julgados por terem usado verbas públicas para comprar um relógio de 15 mil euros a Torres, em 2004 – justificou o acto.
2 de Fevereiro de 2011 às 00:30
Ferreira Torres, que recebeu prenda comprada com dinheiro público, é testemunha da acusação
Ferreira Torres, que recebeu prenda comprada com dinheiro público, é testemunha da acusação FOTO: Alexandre Panda

Ao longo de quatro horas e meia, o único arguido que aceitou prestar declarações perante o colectivo de juízes explicou que em finais de 2004 foi interrogado por Agostinho Mendes, então presidente da junta de freguesia de Sobretâmega, sobre se queria contribuir com 500 euros. O dinheiro era destinado a pagar uma homenagem ao então presidente da câmara, Ferreira Torres, o que, segundo a acusação, perfila um crime de peculato. "Falei com a secretária e tesoureiro da junta e decidimos dar o dinheiro. Não chegámos a discutir a legalidade do acto, mas sim se era merecido ou não." Questionado pelo juiz José Alberto Dias sobre o interesse público da contribuição de um valor de 500 euros pago pela junta de freguesia para homenagear o então presidente da câmara, o arguido enumerou várias obras efectuadas na freguesia, atribuídas a Ferreira Torres.

O ex-presidente da câmara foi presenteado, em Novembro de 2004, com um relógio de ouro. Na altura, a maioria das junta de freguesia de Marco de Canaveses foram contactadas no sentido de contribuir com 500 euros. 25 autarcas de oito junta de freguesia respondem agora por peculato.

"NEM PERCEBO POR QUE ISTO VEIO A TRIBUNAL"

Avelino Ferreira Torres, que é testemunha de acusação no processo, disse ontem ao CM que não percebe a ilegalidade da decisão dos presidentes de junta. "Eles decidiram oferecer-me um relógio de ouro para me homenagear no dia em que fiz anos. Na altura fui apanhado de surpresa pela prenda, mas não vejo mal nenhum", explicou Torres.

Na altura alguns dos autarcas decidiram contribuir com dinheiro pessoal e outros levaram a questão a reunião de junta e pagaram com verbas públicas. O julgamento continua na próxima terça-feira, com audição de testemunhas de acusação. O ex--presidente da Câmara de Marco de Canaveses deve ser ouvido pelo tribunal no dia 1 de Março.

FERREIRA TORRES MARCO DE CANAVEZES AUTARCAS JULGAMENTO
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)