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Correio da Manhã

Política
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Caloira de Chaves à descoberta de S. Bento

Paula Barros coloca a pequena mala de viagem na bagageira do carro, dá uma volta aos amores-perfeitos plantados em frente da vivenda, troca os últimos dois dedos de conversa com a mãe. E despede-se no momento em que uma lágrima ameaça cair-lhe pelo rosto. Deputada do PS, eleita em terceiro lugar pelo círculo de Vila Real, mete a chave na ignição e arranca, sozinha, rumo a Lisboa. Rumo ao Parlamento.
11 de Março de 2005 às 00:00
Paula barros ao lado do líder da sua distrital, a de Vila Real
Paula barros ao lado do líder da sua distrital, a de Vila Real FOTO: Manuel Moreira
De Chaves, onde reside, leva além da indumentária imposta pelo protocolo uma mão-cheia de sonhos. Tem muitas ideias para concretizar agora que está entre as estrelas da política nacional: “Sou uma mulher de desafios e estou preparada para trabalhar. Vou lutar para o meu crescimento político, para poder assumir a defesa intransigente dos que me elegeram”, desabafa.
Paula chega ao Hotel Altis, habitual quartel-general dos socialistas em tempo de eleições, por volta das 21H30. Está cansada, desespera por umas boas horas de sono. Antes de se deitar tem ainda forças para passar os olhos por uns quantos documentos, preparar-se para o grande dia da tomada de posse. É o tão merecido descanso da guerreira.
CORRUPIO SOCIALISTA
A porta do quarto 833 do Altis manteve--se fechada quase até ao almoço. Na tranquilidade daquelas quatro paredes, Paula Barros aproveitou a manhã de ontem para ligar à mãe, sua maior confidente. Não resiste a contar-lhe como correu a viagem. Só depois é que se prepara para dar uma volta pela capital. Mas o telefone começa a tocar uma e outra vez, com amigos de todo o lado a desejarem-lhe boa sorte para a nova etapa.
A visita “às tias de Lisboa”, como costuma tratar as suas amigas ‘alfacinhas’, ficará para outro dia. Oportunidades decerto não lhe faltarão: “Vou manter residência em Chaves, até porque só assim conseguirei ser uma voz activa daquela região. Por certo, terei outras hipóteses de ver as minhas amigas daqui”, explica.
Aos 38 anos, solteira e sem filhos, a professora de Biologia deixa a presidência do Conselho Executivo do Agrupamento Vertical de Escolas Dr. Francisco Gonçalves Carneiro. Na cabeça tem uma única certeza – a sua viatura palmilhará muito alcatrão para a levar a todo o lado.
Um delicioso bacalhau à Brás, devorado no restaurante da Assembleia, aconchega-lhe o estômago antes da sessão inaugural. Depois aproveitou o buraco na agenda do dia para conhecer futuros colegas de bancada, e dar uma vistoria pelos cantos daquela que será a sua segunda casa nos próximos quatro anos. “Só tinha entrado no edifício uma vez, era ainda estudante, e chegar aqui nesta posição é como entrar num mundo novo. Ainda me sinto meio perdida, mas tranquila”, reconhece.
Horas depois, já sentada na terceira fila da bancada ‘rosa’, com a pasta de ‘caloira’ na mão, olha para o hemiciclo, em crescente rebuliço. Está fascinada. Mas não deixa transparecer uma exuberância desmedida, porque traz estampada no rosto a simplicidade das gentes do Interior. É com olhos de ver que, observa sorridente o à-vontade daqueles que por ali passam há anos.
Um dia, se tudo correr bem, também ela transmitirá tamanha confiança. Por agora, a professora está pronta para a primeira grande aula de sobrevivência política. Desta vez, será ela a aluna.
A AJUDA DO CONTERRÂNEO
Ascenso Simões, cabeça de lista do Partido Socialista pelo círculo de Vila Real, conhece bem o Parlamento. Também domina o protocolo, pelo que tem dado uma ajuda inestimável a Paula Barros. A estreante não se esquece de referi-lo naqueles primeiros momentos de ambientação ao local: “Tem sido muito importante, até porque existe uma série de passos a cumprir, de papelada a formalizar, sem o apoio dele, que ainda por cima pertence ao mesmo distrito que eu, seria muito mais complicado passar por isto” afirma. Depois acrescenta: “Assim sinto-me segura.” Paula conforta-se ainda por saber que não é a única a passar pela experiência: “Há aqui muita gente nova e ajudamo-nos uns aos outros.”
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