Poderá estar por horas a detenção de Fátima Felgueiras. Sílvio Pinho, da Polícia Federal do Rio de Janeiro, confirmou ontem ao CM que a prisão da ex-autarca de Felgueiras depende agora da análise inicial do mandado de captura no Ministério da Justiça brasileiro (pedido pela Interpol) e do posterior veredicto do Supremo Tribunal do Brasil – a última instância a destinar o seu futuro.
A partir daqui, as versões voltam a divergir, consoante as interpretações jurídicas acerca da nacionalidade de Fátima Felgueiras. A mesma fonte policial garante que o facto de ex-autarca possuir nacionalidade brasileira – o que parece já estar comprovado – não deverá constituir impedimento para a sua detenção, tanto mais que o caso há muito deixou de ser apenas jurídico, para ganhar uma componente política.
Desde a primeira hora que o Governo de Durão Barroso terá pressionado Brasília para que a detenção de Fátima Felgueiras ocorra. Neste caso, a emissão do mandado de captura e a sua execução estará por horas. Sublinhe-se, que todavia, a detenção da autarca acusada não significa a sua extradição para Portugal.
Paralelamente, fontes ligadas aos meios jurídicos entendem que o facto de Felgueiras possuir a dupla nacionalidade impede, desde logo, qualquer mandado de captura.
Seja como for, a Polícia Federal garante que conhece o paradeiro da antiga presidente da Câmara de Felgueiras, pelo que, uma vez emitido o mandado do Supremo, a detenção ocorrerá com rapidez.
No documento da Interpol enviado ao governo brasileiro relata-se que Fátima Felgueiras é acusada de 12 crimes de abuso de autoridade, sete de corrupção, cinco de participação em crimes económicos , quatro por crimes de apropriação e um de abuso de confiança.
FUGA DE FELGUEIRAS DEIXA DE SER NOTÍCIA
Em contraposição à importância e repercussão que tem tido na Imprensa portuguesa, o caso Fátima Felgueiras não tem merecido destaque na imprensa brasileira e, desde sábado, deixou mesmo de ser notícia.
Na quinta-feira, alguns jornais do Rio de Janeiro noticiaram a fuga de Fátima Felgueiras para a cidade e, à noite, a mesma informação foi veiculada no final do Jornal Nacional da TVGlobo. A partir daí, o assunto não mereceu muito mais atenção dos jornalistas do Rio de Janeiro, repletos de notícias bem mais sangrentas para encher as páginas policiais. Na maioria dos outros estados brasileiros, o caso da autarca de Felgueiras nem mesmo mereceu uma pequena nota.
Também não é para menos, se atentarmos nas tragédias que, por exemplo, no Rio de Janeiro se sucedem diariamente. No dia em que Fátima Felgueiras chegou à cidade, uma estudante foi baleada na cabeça dentro da universidade onde estudava e ficou tetraplégica. Quinta- -feira, três polícias foram assassinados e a Polícia entrou em confronto com traficantes em várias favelas da cidade. Só no Morro da Mineira, oito supostos bandidos morreram num único confronto na sexta-feira, numa reacção da Polícia à morte dos companheiros.
Com um quadro assim, a eventual presença de Fátima Felgueiras não suscita qualquer atenção. Afinal, o Rio de Janeiro é um refúgio habitual para pessoas procuradas noutros países e uma cidade que está habituada a receber criminosos famosos, acusados de crimes violentos, tráfico de drogas e outros semelhantes, não dá importância a uma autarca acusada de corrupção. Tanto mais que, na cultura brasileira, desvio de verbas públicas praticamente não é considerado crime pela população, de tal forma está habituada a isso e que reelege sucessivamente esses políticos, seguindo o velho lema de “ele rouba, mas faz”...
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