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Correio da Manhã

Política
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Carreirismo e visão utilitarista dominam PSD

Rui Machete, histórico social-democrata, não tem dúvidas de que o partido “esqueceu os seus ideais” e precisa de regressar às suas origens. Sobretudo, afirma, necessita de “falar verdade” e “sem subterfúgios”. Apoia Marques Mendes.
3 de Abril de 2005 às 00:00
Rui Machete diz que os sociais-democratas estão muito acomodados
Rui Machete diz que os sociais-democratas estão muito acomodados FOTO: Sérgio Lemos
– Correio da Manhã - Depois da derrota histórica nas últimas eleições legislativas, como é que o PSD poderá recuperar a confiança dos portugueses?
Rui Machete – Eu acho que a derrota foi justificada e merecida, digamos assim, pelos muitos erros cometidos. E a melhor maneira de corrigir a situação é repensar o que foi dito, a sua doutrina, a sua organização, de algum modo reestabelecendo os valores fundamentais que estiveram na razão do seu aparecimento. No fundo, temos de fazer, primeiro, um exame de consciência e, depois, uma política de verdade, porque eu julgo que, a folhas tantas, se esqueceu que o partido existe para servir o País e não para servir algumas das pessoas que temporariamente ocupam postos no partido. Agora estamos muito acomodados e existe um certo carreirismo e uma visão excessivamente utilitária que as pessoas se servem do partido. É claro que há sempre excepções, mas na maioria dos casos, infelizmente, nota-se que o partido esqueceu os seus ideais e aquilo que o levou a ser o maior partido português.
– Defende o regresso do PSD às origens da sua fundação?
– É. Isso não é fácil. Mas se não fizermos isso, se não falarmos verdade, iludimo-nos a nós próprios. Uma coisa triste que eu senti foi ver que havia sinais iniludíveis que o eleitorado português estava desagradado com o caminho que as coisas estavam tomando no partido e os diversos órgãos achavam que não.
– Quando fala em visão utilitária, partilha da posição de Cavaco Silva sobre a incompetência dos quadros dos partidos?
– Eu não estava a pensar nessa posição, mas concordo basicamente com ela. O problema é este: para que um partido funcione bem, é preciso perder tempo e não pensar que quando se trabalha no partido e para o partido é sempre perda de tempo. Os partidos precisam de pessoas que lhe dêem tempo e que estejam dispostas a sacrificar-se.
– Dos dois candidatos à liderança do PSD, qual é o melhor para o PSD?
– Neste momento, como há apenas dois candidatos, quem está mais próximo é claramente o dr. Marques Mendes.
– É esse o seu candidato?
– Sim.
– Partilha do objectivo dele de recolocar o PSD no centro e apostar numa oposição forte para que possa ser alternativa de Governo?
– Parece-me que esse tem de ser necessariamente o caminho. Não é o único aspecto.
– Acha que Marques Mendes é o líder que o PSD precisa?
– Dentro da situação que, neste momento, se nos depara, existem dois candidatos: um é de algum modo a continuação do dr. Pedro Santana Lopes, mas sem a candura e as ilusões do dr. Pedro Santana Lopes, e outro que procura emendar a mão. Eu prefiro claramente aquele que procura emendar a mão.
– O próximo líder será de transição?
– Eu acho que todos os líderes apresentam-se sempre como líderes de transição. Depois é o desafio que lhe é posto, e vamos ver como ele o vai enfrentar. Isso é uma construção feita a posteriori.
PRESIDENCIAIS SÃO DECISIVAS PARA PSD
– As autárquicas e as presidenciais são decisivas para o futuro imediato do PSD e do próprio líder?
– As autárquicas são eleições em que os candidatos desempenham um papel fundamental. Elas reflectem muito o estado do partido na sociedade, embora não sejam decisivas para a sorte do Governo... O problema das presidenciais é que é preciso alguém com independência, não apenas de vontade mas também de visão da política. Por isso, eu penso que as eleições são extremamente importantes para recriar uma posição para o partido depois concorrer, já estando reestabelecido, de uma forma confortável nas próximas eleições legislativas.
– Nesse sentido, o professor Cavaco Silva é o candidato mais querido dos sociais-democratas. É esse também o seu candidato?
– Eu nunca fui, dentro do partido, um incondicional do professor Cavaco Silva. Estou disposto a apoiá-lo. Parece-me ser o candidato com melhores condições para ser o Presidente de Portugal.
SANTANA NÃO TINHA QUALIDADES
– O PSD vive uma crise de liderança?
– Não é só uma crise de liderança. O dr. Santana Lopes não tinha as qualidades suficientes para ser líder. Mas ele não é o único culpado por todos os males que aconteceram no partido. Ele não foi, a meu ver, o líder adequado, precisava urgentemente de ser substituído por outro líder. Ele, simplesmente, ajudou a agravar a situação, não a melhorou.
PERFIL
Rui Manuel Parente Chancerelle de Machete nasceu a 7 de Abril de 1940, em Setúbal. É licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Foi professor do Instituto de Estudos Sociais e do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, tendo igualmente regido as Cadeiras de Direito Constitucional, Direito Administrativo e de Ciência Política.
É professor da Universidade Católica. Machete foi fundador da SEDES, secretário de Estado da Emigração (1975), ministro dos Assuntos Sociais (1976-79), Administrador do Banco de Portugal (1981-83), ministro da Justiça (1983-85), vice-primeiro-ministro e ministro da Defesa (1985). Deputado (1976-95) e presidente da Comissão Parlamentar de Economia (1985).
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