Cavaco Silva pronunciou-se ontem abertamente e pela primeira vez sobre o mercado ibérico de energia, mostrando uma posição clara: nada de proteccionismos, liberdade total para o funcionamento do mercado. Foi em Oviedo, antes da visita à central termoeléctrica de Aboño, da Hidrocantábrico, grupo EDP, numa declaração em que cada palavra parece ter sido pensada ao detalhe e que engloba vários recados.
“Num momento em que se fala tanto do mercado de energia, penso que este investimento da EDP nas Astúrias tem corrido muito bem. Com certeza que outras oportunidades surgirão dos dois lados da fronteira, para fortalecer as relações económicas e contribuir para a melhoria das condições de vida das populações”, disse o presidente português.
Mas a declaração de Cavaco Silva não terá surgido por acaso. Na véspera, o Presidente português cruzou-se com o presidente da EDP, António Mexia, na recepção oferecida no Palácio do Pardo, em Madrid. E durante a manhã de ontem, quando as manchetes dos jornais espanhóis eram todas sobre compras, hipóteses de fusão e mudanças nas empresas de energia em Espanha, terá estabelecido contactos com o ministro da Economia, Manuel Pinho, mantendo-se informado sobre todos os rumores que corriam e que fizeram a EDP alcançar em bolsa valores que não conhecia desde 2001 (subida de 6,21% para fechar a 3,42 euros por acção) e sobre a influência destas mexidas na empresa portuguesa. Cavaco viajou, aliás, pela primeira vez no mesmo carro com o ministro da Economia para a visita à central eléctrica, já depois de feita a declaração, de que Pinho terá sabido antecipadamente.
Um exemplo claro de que o discurso de Cavaco, Pinho e Mexia estava concertado revelou-se antes de o presidente da EDP falar. Na ocasião, Pinho segredou-lhe ao ouvido: “Está a ver o que ele disse”, sendo ‘ele’ o Presidente da República.
SEM DÚVIDAS
Para que não restassem dúvidas, o Presidente português quebrou o protocolo da visita a Aboño e deixou-se interpelar pelos jornalistas à entrada da central para dizer: “Hoje em dia já não há proteccionismo, estamos no mercado europeu. É positivo ver empresas portuguesas a investir em Espanha e espanholas a investir em Portugal, a EDP é um bom exemplo porque cria riqueza para uma região.” Mais tarde, já à saída, explicou novamente a sua posição e uma das frases dúbias do seu discurso no Congresso espanhol, na última terça-feira. “O que eu disse e parece ter sido mal interpretado é que houve um avanço extraordinário na cooperação económica entre os dois países, que de vez em quando surgem queixas da existência desta ou daquela dificuldade, que se resolvem com trabalho e diálogo, não falei de proteccionismo”.
Manuel Pinho, um dos quatro ministros que acompanha o Presidente, ausente em vários actos protocolares, esteve sempre ao lado de Cavaco, mostrando quão sensível é a questão do mercado de energia ibérico. No final, apenas uma frase: “É extremamente prematuro para tirar conclusões.”
Já António Mexia, mostrava estar à espera de tudo. “Estes são movimentos ainda sem fim à vista, mas seguimos as mudanças e expectativas da vitalidade de que este mercado dá mostras”, disse, definindo regras: “A EDP tem uma estratégia clara, os accionistas estão de acordo com ela, mas seguimos com atenção o nosso mercado de referência, que é o ibérico.”
UMA ROCHA PARA O CHEFE DE ESTADO
O casal Cavaco Silva visitou o Centro de Astrobiologia, que estuda a existência de vida no universo. A confusão instalou-se quando Juan Mercader, director do centro, falou de Rio Tinto, fazendo comparações com Marte. Já ninguém percebia do que se tratava: se de um rio no planeta vermelho, se da terra a norte de Portugal ou das minas com o mesmo nome em Espanha.
A explicação surgiu com a mais estranha oferta que Cavaco recebeu nesta visita. Uma rocha retirada precisamente dessas minas de ferro que mostra os mais antigos vestígios de vida unicelular fossilizada da Península.
Mercader explicou então, mostrando que o mesmo tipo de rocha foi descoberto num meteorito caído em 1962 na Nigéria, cuja proveniência foi Marte. No centro trabalham 50 investigadores de vários países. Um deles é português, algo que o ministro da Ciência e Tecnologia, Mariano Gago, desconhecia.
'O PROTOCOLO NÃO ME CANSA'
Maria Cavaco Silva voltou ontem a ter uma agenda paralela à do marido à chegada a Oviedo. Enquanto Cavaco Silva visitou a sede do governo do Principado das Astúrias e a hidroeléctrica do Aboño, da EDP, a primeira-dama visitou um centro de emprego e as termas de Gijon. Aproveitou a ocasião para dizer que o protocolo não a cansa: “Não me preocupo em cumprir todas as regras”, exclamou. E defendeu Letizia em relação à nova gravidez: “Eu também tive o meu filho com 12 meses de diferença.” Com um sorriso concluiu não temer ‘ofuscações’ da princesa das Astúrias.
ANFITRIÃO
O casal português pode orgulhar-se de ter hoje em Oviedo, capital do Principado das Astúrias, o príncipe Felipe, já que é a primeira vez que o herdeiro do trono é anfitrião de uma visita de Estado.
PORTUGUESES
Nas Astúrias vivem oito mil portugueses, alguns com dupla nacionalidade, e 800 crianças têm aulas em Português. Foi exactamente isso que referiu Vicente Areces, presidente do Governo do Principado.
INTERNET
A aposta na ciência e tecnologia por parte de Cavaco não surgiu por acaso. O Presidente está “viciado” nas novas tecnologias e é um navegador permanente da internet.
ROUPA
Maria Cavaco Silva voltou a vestir creme no terceiro dia de visita, sendo que ontem repetiu a mesma roupa que tinha usado este ano nas cerimónias do 10 de Junho, no Porto.
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