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Correio da Manhã

Política
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Cavaco exige um Governo leal

O Presidente da República recuperou ontem a sua expressão "cooperação estratégica" no discurso de tomada de posse do XVIII Governo Constitucional. Em quinze minutos, Cavaco Silva prometeu que será "sempre um referencial de estabilidade", até porque conhece as dificuldades de um Executivo minoritário, e defendeu um Governo para quatro anos. Porém, foi incisivo nos recados à nova equipa de José Sócrates. "Todos somos chamados a actuar com um grande sentido de responsabilidade e de lealdade institucional", face à situação do País.
27 de Outubro de 2009 às 00:30
Na sala dos Embaixadores no Palácio da Ajuda, Cavaco Silva ouviu atentamente o discurso de José Sócrates. No final aplaudiu a intervenção.
Na sala dos Embaixadores no Palácio da Ajuda, Cavaco Silva ouviu atentamente o discurso de José Sócrates. No final aplaudiu a intervenção. FOTO: João Miguel Rodrigues

'A ausência de maioria não implica o adiamento das medidas que a situação do País reclama. Para qualquer Governo, o horizonte temporal de acção deve ser sempre a legislatura', afirmou o Chefe de Estado perante o olhar atento do primeiro-ministro empossado.

No rescaldo da tensão entre Belém e São Bento, Cavaco lembrou que nunca faltou 'à palavra dada', nem tão-pouco se move 'por cálculos políticos'. Por isso, 'este Governo pode contar com a cooperação do Presidente', declarou, insistindo na sua imparcialidade perante as diversas forças políticas. 'Os cargos públicos são efémeros, mas o carácter dos homens é duradouro.'

O Presidente destacou o desemprego e o endividamento como sérios problemas do País. Em resposta a estas preocupações, Sócrates disse que a primeira prioridade do Governo é a de 'defender o emprego incentivando a contratação'. O investimento público será um estímulo à criação desemprego.

RECADOS NO PALÁCIO DA AJUDA

O QUE DISSE JOSÉ SÓCRATES

LEGITIMIDADE: O voto dos portugueses foi um voto de confiança numa governação reformista

PRIMEIRA PRIORIDADE: A primeira prioridade é a crise. A recuperação da nossa economia é o objectivo da governação

SEGUNDA PRIORIDADE: A segunda prioridade do Governo é a modernização da economia e da sociedade portuguesa

AGENDA DE MODERNIZAÇÃO: O primeiro ponto da agenda de moderanização é a aposta nas energias renováveis

AGENDA DE MODERNIZAÇÃO II: Outro exemplo da modernização é a extensão da escolaridade até ao fim do Secundário

COOPERAÇÃO ESTRATÉGICA: Renovo o empenhamento do Governo na cooperação institucional com o Presidente

O QUE DISSE CAVACO SILVA

LEGITIMIDADE: O Governo que hoje toma posse tem plena legitimidade constitucional para governar

SITUAÇÃO DO PAÍS: Sei que nos encontramos perante uma situação' económica e social preocupante

PROBLEMAS DO PAÍS: O desemprego e o endividamento externo são os problemas que merecem particular atenção

COOPERAÇÃO ESTRATÉGICA: Mantenho o compromisso de cooperação institucional e também de cooperação estratégica

PALAVRA E COMPROMISSO: Nunca faltei à palavra dada e aos compromissos que assumi, em público ou em privado

CARÁCTER: Os cargos públicos são efémeros, mas o carácter dos homens é duradouro

NOVOS MINISTROS TÊM LIÇÃO DE GOVERNAÇÃO

No próprio dia da tomada de posse do novo Governo, José Sócrates fez questão de reunir oficialmente com todos os novos ministros. Mais do que uma reunião para tomar decisões, o Concelho de Ministros de ontem, que durou três horas e meia, serviu para o primeiro-ministro informar os estreantes do funcionamento geral do Governo.

Entre os 16 ministros do Executivo, seis são novos neste meio: António Mendonça, das Obras Públicas, Isabel Alçada, da Educação, António Serrano, da Agricultura, Dulce Pássaro, do Ambiente, Helena André, do Trabalho, Gabriela Canavilhas, da Cultura. Alberto Martins, ministro da Justiça, já passou por esta experiência no Governo de António Guterres.

De resto, a reunião do Conselho de Ministros foi ocupada com uma abordagem geral das prioridades do Executivo.

UM ENVELOPE PARA SÓCRATES

Vítor Constâncio entregou um pequeno envelope ao primeiro-ministro no momento dos cumprimentos oficiais. Minutos antes abanou a cabeça em sinal de desaprovação quando ouviu Cavaco relacionar o défice externo e o desequilíbrio das contas públicas.

JAIME SILVA FOI PARA FÉRIAS

O ex-ministro da Agricultura, um dos mais contestados do anterior Governo, foi o único que não compareceu à cerimónia de tomada de posse. Jaime Silva 'foi de férias', explicou o seu assessor de imprensa.

'A FAMÍLIA ESTÁ FELIZ'

Passavam vinte minutos das 11h00 quando a mãe do primeiro-ministro chegou ao Palácio da Ajuda para assistir à tomada de posse do filho como chefe do Executivo.

Acompanhada de dois familiares, Maria Adelaide Monteiro, entrou discreta, de tailleur preto, junto à Porta dos Archeiros. Sempre em silêncio procurou, depois, inteirar-se de onde era o acesso aos familiares dos membros do Governo empossado.

No final da cerimónia, Maria Adelaide Monteiro não quis falar, depois de ter sido interpelada pelos jornalistas. E até fez um gesto a avisar que ficaria em silêncio. Os seus netos também não foram vistos na sala destinada aos familiares dos governantes.

Cauteloso, José Sousa, primo da família que acompanhou a mãe de Sócrates, acabou por fazer umas declarações de circunstância perante a insistência. 'Somos todos portugueses', e no dia de tomada de posse de um novo Executivo, a 'família é portuguesa e está feliz'. Uma ideia geral deixada aos jornalistas para não se alongar em mais considerações e rematar o diálogo.

É raro Maria Adelaide Monteiro participar em iniciativas públicas com o filho. Evita as câmaras, mas procura estar presente nos momentos decisivos para a vida política de José Sócrates. Recentemente esteve adoentada.

Edite Estrela, eurodeputada socialista, que também é amiga do chefe de Executivo, conversou com a família de José Sócrates durante a cerimónia. Cá fora, aos jornalistas destacou, por um lado, o peso das mulheres na composição, e por outro, a 'grande capacidade' das eleitas pelo primeiro-ministro para o Governo. Aos jornalistas, reiterou que acredita num Executivo para quatro anos, uma frase realçada pelo presidente do PS, Almeida Santos, e até destacada no discurso do Presidente da República.

E se o dia era de pompa e circunstância, com a maioria do elenco feminino do Executivo a apostar nos tons pretos e brancos, vários governantes também se fizeram acompanhar pela família, como foi o caso de Alberto Martins, o novo ministro da Justiça, e Pedro Silva Pereira, ministro do Estado e da Presidência. Ao contrário, outros governantes como Jorge Lacão, o novo ministro dos Assuntos Parlamentares, chegaram sozinhos ao Palácio da Ajuda.

Numa cerimónia com fortes medidas de segurança, as reacções dos governantes cessantes e dos novos responsáveis do Executivo também foram escassas. O ex-ministro das Obras Públicas, Mário Lino, preferiu o silêncio. No final, procurava saber onde estava o seu carro.

PAI NÃO ESTEVE NA SALA DOS CONVIDADOS

Ao contrário da mãe de José Sócrates, o pai não esteve na sala de convidados destinada aos familiares. Apesar de estar prevista a sua presença, Fernando Pinto de Sousa não foi visto na cerimónia.

Recorde-se que, em 2005, o pai de Sócrates lamentou o facto de ter assistido ao discurso do filho pela televisão numa sala destinada ao público. O CM tentou obter uma declaração de Pinto de Sousa sobre a tomada de posse do filho, mas sem sucesso.

Pinto de Sousa esteve presente na apresentação do livro biográfico ‘Menino de Ouro’, no ano passado, dedicada a Sócrates.

HUMOR TERMINA NA ESQUADRA

Neto e Falâncio (a dupla de humoristas Jel e Vasco Duarte) manifestaram-se, de megafone e cartaz em punho, a favor do primeiro-ministro em frente ao Palácio da Ajuda, mas os agentes policiais não acharam piada e os dois terminaram numa esquadra, depois de terem sido empurrados para o interior de uma viatura da PSP. Serão presentes ao Ministério Público. A actuação dos dois humoristas foi o única situação que deu alguma emoção aos agentes que se limitaram, durante as mais de quatro horas, a orientar os motoristas que traziam os ministros.

PORMENORES

‘LUTA’ MUITO RUIDOSA

O megafone que dava eco à luta de ‘Jel’ e ‘Falâncio’ ouvia--se ao longe na Sala dos Embaixadores, onde os novos ministros tomaram posse.

VITORINO E CABRITA

Ana P. Vitorino antecipou-se ao protocolo e saiu do carro antes de lhe abrirem a porta. Atrás, noutra viatura, surgiu Eduardo Cabrita, o companheiro. Os dois ex-governantes saíram juntos após a cerimónia.

SEGURANÇA A RODOS

Na Ajuda, os jornalistas ficaram quase sempre longe dos convidados. Estiveram mesmo isolados numa sala para os directos. E os corredores estavam repletos de seguranças.

FAMILIARES 'EM PESO'

No dia em que o protocolo ditou as regras, os familiares dos governantes compareceram em peso.

Pedro Silva Pereira, ministro do Estado e da Presidência, teve por perto os filhos e a mulher, Ana Bessa, engenheira de formação. A mãe de Helena André, ministra do Trabalho, era um dos rostos mais sorridentes. Orgulhosa, disse confiar nas capacidades da filha.

E se a chegada foi confusa com o trocar de voltas de alguns governantes ao protocolo, a saída não foi melhor. Teixeira dos Santos foi obrigado a esperar que a comitiva de José Sócrates arrancasse, para ele próprio poder abandonar as arcadas da Porta dos Archeiros.

NOTAS

ADEUS: LURDES RODRIGUES

A ex-ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, vestiu-se de vermelho para a despedida e cumprimentou José Sócrates. No final saiu 'com sentimento de dever cumprido'

CERIMÓNIA: CALOR APERTOU

Os membros do Governo e as mais altas figuras do Estado enfrentaram ontem, na tomada de posse do Executivo, uma sala apinhada com muito calor. Mas ninguém se sentiu mal

PSD: FERREIRA LEITE SOZINHA

A líder do PSD, Manuela Ferreira Leite, foi a única dirigente da Oposição que esteve presente na cerimónia. Saiu como chegou: sozinha. Lá dentro esteve à conversa com Vera Jardim (PS)

EDUCAÇÕ: TESTEMUNHO

O abraço entre Isabel Alçada e Maria de Lurdes Rodrigues simboliza a passagem de testemunho na Educação. O problema da avaliação será o primeiro desafio

JOVEM DEPUTADO: MOTARD

Um jovem deputado do PS deu nas vistas na cerimónia. À chegada, o jovem destacou-se pela originalidade ao surgir de mota entre o longo desfile de carros de alta cilindrada

SILVA PEREIRA: PAI ORGULHOSO

Manuel Silva Pereira, pai do ministro da Presidência, confessou estar orgulhoso do filho e admitiu mesmo aos jornalistas que costuma dar-lhe alguns conselhos

BOLEIA: EX-MINISTRO GARANTE

Nunes Correia, o ex-ministro do Ambiente, regressou a casa, depois da cerimónia, em viatura oficial. Uma gentileza que o próprio revelou aos jornalistas, no final dos cumprimentos

'BOMBAS': 50 EM MEIA-HORA

À hora de maior movimento, entre as 11h00 e as 11h30, o CM contabilizou 50 automóveis a deixar novos ministros, ex-ministros e outras figuras de Estado: mais de metade era BMW

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