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Correio da Manhã

Política
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Jerónimo de Sousa reeleito secretário-geral do PCP com um voto contra pela primeira vez

Problemas do País "não se combatem com Estados de Emergência excessivos e inconsequentes", disse no discurso.
Lusa 29 de Novembro de 2020 às 08:52
O secretário-geral do Partido Comunista Português (PCP), Jerónimo de Sousa (D), conversa com um delegado durante o segundo dia do XXI Congresso
Congresso do PCP
O secretário-geral do Partido Comunista Português (PCP), Jerónimo de Sousa (D), conversa com um delegado durante o segundo dia do XXI Congresso
Congresso do PCP
O secretário-geral do Partido Comunista Português (PCP), Jerónimo de Sousa (D), conversa com um delegado durante o segundo dia do XXI Congresso
Congresso do PCP
Jerónimo de Sousa foi eleito secretário-geral do PCP pela quinta vez, com um voto contra, pelo comité central reunido no XXI congresso nacional do partido, em Loures, este domingo. Além desta reeleição, foi ainda aprovada por unanimidade a resolução política do partido, que define a estratégia do partido para os próximos quatro anos.

Após a votação, os comunistas gritaram a palavra de ordem PCP/PCP. O documento incorporou 23 alterações na redação final, a grande maioria das quais de questões gramaticais ou de pormenor e sem alterar o sentido dos textos.

Na reunião do comité central, no sábado à noite, Jerónimo de Sousa entendeu "não votar na sua própria candidatura", tendo sido eleito "por maioria, com um voto contra", de acordo com uma informação distribuida aos delegados e aos jornalistas, no congresso, em Loures, distrito de Lisboa.

Escolhido pela primeira vez em 2004, Jerónimo foi reeleito por quatro vezes para liderar os comunistas portugueses, sucedendo a Carlos Carvalhas, que esteve no cargo 12 anos, de 1992 a 2004.

Operário e deputado à Constituinte, em 1975, Jerónimo de Sousa, 73 anos, torna-se assim no segundo secretário-geral há mais tempo à frente do partido (16 anos), depois do líder histórico do PCP Álvaro Cunhal (31 anos).

Jerónimo critica "Estados de Emergência excessivos e inconsequentes"
No discurso que fez pelas 12h00, antes do encerramento do congresso, o reeleito secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa destacou que pelo congresso "passaram os problemas dos trabalhadores e do povo", sublinhando que "estão mais agravados", não apenas pela pandemia de Covid-19, mas também"pela política de direita".

O líder do PCP defendeu que os problemas do País "não se combatem com Estados de Emergência excessivos e inconsequentes", mas sim "com medidas de emergência social". Afirmou ainda que "há mais portugueses vítimas da exploração, do desemprego e da pobreza"

A alternativa política, de esquerda, precisa da "convergência de democratas e patriotas, da luta dos trabalhadores e do povo" e do "reforço do partido, afirmou Jerónimo de Sousa no discurso com que encerrou o congresso, no pavilhão Paz e Amizade, em Loures, Lisboa.

"Alternativa política que não é possível só com o PCP, mas também não será possível sem o PCP", disse Jerónimo, eleito pela quinta vez.

O secretário-geral comunista não estar "a prazo" no cargo, à saída do XXI Congresso Nacional do PCP, em Loures.

Questionado insistentemente sobre se irá cumprir integralmente os próximos quatro anos à frente dos comunistas, Jerónimo de Sousa assegurou estar "com força".

"Não estou a prazo", resumiu, antes de entrar para a viatura do PCP que o costuma transportar, com os seguranças a apressarem o abandono do recinto.
No sábado, o novo comité central, com 129 membros, foi eleito numa sessão fechada do congresso, no pavilhão Paz e Amizade, em Loures, Lisboa, com 98,5% dos votos. Dos 611 delegados, 603 votaram a favor, três contra e seis abstiveram-se.

Este congresso, envolto em polémica, criticado pelos partidos da direita, realizou-se em plena pandemia de covid-19 e em estado de emergência.

No discurso de abertura, na sexta-feira, Jerónimo avisou que o seu partido, tal como na legislatura passada em que participou num entendimento à esquerda com o PS, não foi "parte de uma alegada maioria" de suporte ao Governo, "mas sim força de oposição".

"Oposição a tudo o que contrarie ou faça retroceder os interesses e direitos dos trabalhadores e do povo, e força indispensável para com a sua iniciativa se avançar na conquista de novos direitos", disse.

Recrutamento de novos militantes é desafio mas não é obsessão do PCP
O dirigente comunista Paulo Raimundo defendeu que o recrutamento de novos militantes "não é uma obsessão" mas "é um desafio" para o PCP, num processo particular que obedece a critérios estatutários como a "seriedade" do candidato.

"Não vivemos obcecados com esse problema nem alteramos critérios por causa disso. Claro que gostávamos de ter mais militantes do que temos mas não vivemos obcecados com essa questão dos números", assegurou à Lusa Paulo Raimundo, membro do Secretariado do Comité Central do PCP.

Longe vão os tempos do pós-25 de Abril, em que as abundantes candidaturas para a militância do PCP obrigavam a uma "averiguação mais profunda" das condições de quem se quisesse juntar ao partido, admitiu.

Com um tempo médio de "uma semana, uma semana e qualquer coisa", raramente excedendo um mês, o processo de validação de uma candidatura à militância comunista exige apenas, de forma geral, "a concordância com o programa do partido e os estatutos", adiantou o dirigente, em declarações à Lusa à margem do XXI Congresso, que termina hoje em Loures.

O número 2 do 10º artigo dos estatutos do PCP estabelece que "a proposta de filiação de um novo membro deve ser avalizada pelo menos por um membro do partido que o conheça e abone da sua seriedade".

A "seriedade" de um candidato a militante, concretizou Paulo Raimundo à Lusa, está usualmente relacionada com uma possível conduta errada em contexto laboral: "por exemplo, será estranho que um trabalhador, por esta ou por aquela razão, tenha uma postura profundamente errada para com os seus companheiros de trabalho".

Nas intervenções do primeiro e segundo dias do XXI Congresso do PCP, que termina hoje, vários foram os delegados que referiram o número militantes recrutados desde a anterior reunião magna, em 2016, admitindo, no entanto, as dificuldades em levar novas caras para as "fileiras" comunistas -- como foi o caso de uma delegada de Palmela que referiu "o medo" de algumas pessoas em "assumir a militância no contexto de trabalho".

No projeto de resolução política apresentado ao XXI Congresso, pode ler-se que, atualmente, os efetivos do partido são 49.960, uma redução "ligada ao facto do número de recrutamentos não ter compensado o número de camaradas que deixaram de contar como membros do Partido, principalmente em consequência de falecimentos", sendo que nos últimos quatro anos foram recrutados 3245 novos militantes.

Quanto à composição etária, "11,4% têm menos de 40 anos, 39,5% têm entre 41 e 64 anos e 49% mais de 64 anos", verificando-se um aumento da proporção dos membros com mais de 64 anos e a percentagem de mulheres (32%).

Ainda quanto aos critérios para a adesão ao PCP, segundo Paulo Raimundo, a militância anterior noutras forças políticas não é um problema para os comunistas. Se existirem suspeitas de "objetivos obscuros" de um potencial militante, o PCP abre a possibilidade de uma espécie de período experimental, no qual a pessoa colabora durante uns meses com o partido até ser integrado como militante efetivo.

"Os nossos critérios de adesão ao partido, no fundamental, responsabilizam mais quem dá esse passo do que quem o recebe", apontou.

Questionado sobre a quantidade de pessoas que estão envolvidas em atividades do partido mas que acabam por não se filiar, Paulo Raimundo justificou essa realidade com o facto de algumas pessoas acharem que "não estão em condições de assumir essa responsabilidade" ou que não concordarem totalmente com o programa, sendo apenas simpatizantes.

Em 2018, uma resolução do Comité Central comunista já admitia como importante o "reforço do partido", estabelecendo como objetivo avançar com 5 mil contactos até ao final desse ano, ação que, mesmo passados dois anos, foi referida várias vezes nas intervenções dos 600 delegados.

Campanhas de recrutamento poderão ser, à partida, "linhas de trabalho" a seguir, disse Paulo Raimundo, que estabeleceu também como desafio para os próximos quatros anos uma "maior audácia" por parte dos militantes em convencer mais pessoas a juntar-se ao PCP.

Secretariado do Comité Central do PCP Jerónimo de Sousa Loures Paulo Raimundo política partidos e movimentos
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