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Nesta que é a última edição do Correio dos Senadores, Jorge Coelho justifica a ida para CEO da Mota-Engil. Reage aos críticos dizendo que é inveja. Dias Loureiro lança as derradeiras críticas a Luís Filipe Menezes
12 de Abril de 2008 às 00:30
Foi tirada há cerca de dois anos, no primeiro debate entre ambos. Embora sejam adversários na política, são como irmãos
Foi tirada há cerca de dois anos, no primeiro debate entre ambos. Embora sejam adversários na política, são como irmãos FOTO: Pedro Zenkl / Agência Zero

JORGE COELHO NA MOTA-ENGIL

Correio da Manhã – Como é que reage à polémica sobre a sua ida para a Mota-Engil?

Jorge Coelho – Não tenho reacção. As pessoas são livres de ter opiniões, mas sou dono da minha vida. Há sete anos que deixei o Governo [a lei obriga a três anos], tenho vida profissional e foi-me apresentado um projecto que me estimulou e aceitei.

– Parece que vai para a Mota-Engil para facilitar processos com o seus contactos.E pode prejudicar a empresa: se ganhar um concurso é porque é o Jorge Coelho, se perder é para não lhe dar a obra. Pode haver estas interpretações?

J.C. – A Mota-Engil é uma grande empresa, cotada em Bolsa, com 60 anos e uma estabilidade accionista garantida pela família. É um caso de sucesso e viveu bem sem mim estes anos. Espero ter êxito e que a empresa tenha êxito, é por isso que vou para lá. Não tenho qualquer problema, até porque todos esses projectos são concursos públicos. Uma grande parte da actividade da Mota-Engil até é no estrangeiro ou em áreas que não são da construção. Mas seja onde for, tudo farei para que haja criação de valor na Mota-Engil, dando continuidade ao sucesso da empresa. A nossa legislação nesta matéria é a mais apertada da OCDE. A norma europeia é não haver questões destas.

D.L. – Conheço o Jorge há anos: é inteligente, tem grande capacidade de trabalho e é sensato. Ninguém acredita que antes de tomar esta decisão não tenha pensado nela. A questão é ética. e não havia impedimento legal. Sete anos depois de sair de funções era o que faltava que não pudesse trabalhar. Não vejo que deva deixar sobrepor a ética de outros à sua própria ética.

J.C. – Quem tem a consciência tranquila não hesita em aceitar um convite destes. Nunca fiz nada diferente do que a minha consciência ditava em relação à Mota-Engil ou outras empresas. Nem houve contestação às decisões que tomei. Não se imagina que ia deixar de trabalhar. Somos um País com características especiais, uma delas é a inveja.Mas eu sei lidar com isso.

D.L. – Tony Blair saiu do Governo e fez um contrato com o JP Morgan, um dos maiores bancos mundiais. Certamente que foi por conhecer a realidade britânica. Não vi nada de mal nisso.

O FUTURO DO PSD

– Olhando para a confusão deste PSD, como olham para os próximos anos?

D.L. – Não estou preocupado. É uma instituição alicerçada com solidez na sociedade, que ao longo de décadas teve altos e baixos. As pessoas esquecem-se, mas em 1985 havia sondagens em que o PSD estava abaixo do CDS – tendo o CDS 18%. Nestes momentos de maior crise e abatimento o que me preocupa é o PSD não continuar a ser um referencial de esperança. Sei que vai voltar a ser, só não sei quando.

– Isso implica mudar de líder?

D.L. – Não. Pode ser com a liderança actual. O problema é que, infelizmente, o PSD tem sido notícia por questões internas: as quotas, a sede, o símbolo e a cor. Esta semana foram as declarações de Ângelo Correia e de Passos Coelho. Isto é mau para o PSD e para o País. Preocupa--me que um pilar da liderança como Ângelo Correia venha dizer que não há rumo, sinal de que a direcção pode estar a desagregar-se. O PSD tem de ser porta-voz e referencial da esperança de muita gente. Tem de saber fazer oposição, com cultura de poder e sentido de Estado, dizendo o que faria melhor e diferente do PS.

– Consegue ver Menezes 1.º ministro?

D.L. – Não faço juízos prévios. Já se disse de muita gente cá e lá fora que nunca seriam primeiros-ministros e alguns revelaram-se muito bons. Não gostei foi de ver o líder do PSD aparecer ao lado do líder da contestação dos professores, não estou habituado a essa história no PSD. Não me parece adequado que, quando se baixa um ponto no IVA, a reacção seja: vamos fazer uma harmonização fiscal com Espanha. Seria um erro porque em Espanha a taxa de IRC é mais alta do que a nossa e nós temos de ser competitivos e ter uma taxa mais baixa.

J.C. – O PSD é um partido central do sistema democrático. Como o PS, teve momentos melhores e piores. Espero que estabilize e crie condições de alternância no poder. São às dezenas os que contestam e degradam a imagem do líder do PSD. Assim é difícil afirmar-se.

– Menezes deve ir às legislativas ou ser avaliado no início do ano como diz Jardim?

D.L. – Sou pelo cumprimento de mandatos e estabilidade de direcções. Foi eleito democraticamente. Se houver uma multidão descontente suficiente para convocar um congresso ou eleições (de acordo com os Estatutos) que o faça. A direcção está a tempo de fazer bem oposição.

SOCIALISTAS À DIREITA

– Sócrates colocou o PS à direita. A partir de agora o PS será liberal e menos socialista?

J.C. – Sócrates não enganou ninguém quando se candidatou com um programa de esquerda moderna diferente daquele o PS apresentava tradicionalmente. Há uma grande maioria no PS à volta dessa estratégia. É um partido de esquerda moderada, com uma política económica muito virada para o mercado, mas com uma perspectiva social importante. Mesmo assim, há muitas pessoas no PS com uma posição mais à esquerda.

D.L. – Sócrates deu a primeira maioria absoluta ao PS com uma estratégia de sucesso. Em Portugal há um enorme eleitorado central que oscila entre PS e PSD. E o PS tem governado muito para manter esse eleitorado. Acresce que Sócrates acredita no que está a fazer, que o País precisa de reformas difíceis, complexas, que custam apoios, mas das quais Portugal precisa. Apesar disso tudo o PS continua a liderar as sondagens.

– O PS entalou o PSD à direita?

D.L. – Com certeza que sim. Conquistou esse eleitorado central que o PSD ganhou muitas vezes. As coisas são o que são. Neste momento a dificuldade é gerar alternativas. O PSD tem de ser imaginativo e lançar para a agenda temas diferentes do PS e mostrar: somos diferentes. Se o PS tivesse uma política de esquerda tudo seria mais fácil.

JORGE COELHO: "ESTIVE A MILÍMETROS DE VIOLENTAR A MINHA CONSCIÊNCIA"

CM – Em quase dois anos de comentário nestas páginas do ‘CM’ o que foi mais difícil defender ou atacar?

D.L. – O mais difícil para mim foi o processo mental que teve a ver com a guerra do Iraque e a posição portuguesa. Foi muito duro para mim até me convencer de que não havia armas e tudo aquilo que hoje se sabe. Foi um processo duro assumir que a minha opinião se estava a refazer.

J.C. – Cheguei a estar a milímetros de defender situações que, se ultrapassassem esses milímetros, iam para além da minha consciência.

– Pode dar um exemplo?

J.C. – Aconteceu várias vezes mas nunca violentei a minha consciência e nunca fiz um frete. Mas estive a um ponto em que, se passasse dali, estava a violentar a minha consciência e tenho orgulho em não o ter feito. Estava numa situação pior: é a minha área política que está noGoverno, com pessoas que conheço...

– Uma crítica sua tinha sempre consequências.

J.C. – Tenho de ter esse sentido de responsabilidade. Isso não fez com que deixasse de fazer críticas, embora não as fizesse de forma estridente.

D.L. –- Fê-lo em relação ao ministro da Saúde, amigo dele. Eu fiz aqui o que faz um cidadão com sensatez e lucidez. Aplaudi o que me parecia bem e disse mal do que achei mal, com sinceridade e honestidade intelectual.

"O JORGE É COMO UM IRMÃO", AFIRMA DIAS LOUREIRO

CM – Esta é a última edição do Correio de Senadores. Esta foto é do primeiro debate, há dois anos, feito na revista ‘Sábado’. O ‘CM’ juntou-vos não só pelos vossos partidos mas por serem amigos e talvez muitos leitores não saibam. Como começou essa amizade?

D.L. – Conhecemo-nos há muitos anos. O Jorge é de Mangualde, eu sou de Aguiar da Beira, a 30 quilómetros. Andámos no colégio de Mangualde. Depois os destinos separaram-se e um dia encontrámo-nos. A seguir, o que lá estava fortificou-se. Hoje tenho no Jorge um amigo como um irmão.

J.C. – O Manuel faz parte de um círculo muito restrito de amigos por quem tenho uma estima gigantesca. É um homem com características invulgares de amizade e de solidariedade. É um amigo com quem tenho partilhado momentos de convívio, felicidade e procura de conselho. Habituei-me a contar com ele em momentos complicados, até da minha vida pessoal: quando tive problemas de saúde graves ajudou-me muito e à minha família a ultrapassar tudo. É uma marca para a vida, nunca o esquecerei. É algo de é indestrutível.

– Nunca houve incompatibilidades políticas?

D.L. – O Jorge é como um irmão. Não me vou chatear com os meus irmãos por pensarem diferente de mim. Mas não estamos assim tão longe, devido à nossa experiência de vida: somos da mesma terra, viemos por aí fora, tivemos funções parecidas. Temos uma ideia parecida do Mundo e do País. Podemos discordar em coisas pontuais, mas a nossa mundividência é próxima. Podemos divergir, mas isso não belisca os nosso afectos.

J.C. – A nossa formação democrática é suficientemente para ser um estímulo ter ideias diferentes. Gosto de contraditório.

JORGE COELHO

FIM DO COMENTÁRIO

Eu estava numa situação pior [no comentário político]: é a minha área que está no Governo, com pessoas que conheço.

MOTA-ENGIL

Nunca fiz nada diferente do que a minha consciência ditava em relação à Mota-Engil ou outras empresas [...]. Somos um País com características especiais, uma delas é a inveja. Mas eu sei lidar com isso.

AMIZADE

Habituei-me a contar com o Manuel Dias Loureiro em momentos complicados: quando tive problemas de saúde graves, ajudou-me muito eà minha família.

PS À DIREITA

José Sócrates não enganou ninguém quando se candidatou com um programa de esquerda moderna diferente daquele que o PS apresentava tradicionalmente.

DIAS LOUREIRO

MOTA-ENGIL

Não vejo que o Jorge Coelho deva deixar sobrepor a ética de outros à sua própria ética.

PSD EM CRISE

Nestes momentos de maior crise e abatimento o que me preocupa é o PSD não continuar a ser um referencial de esperança. Sei que vai voltara ser, só não sei quando.

ESPANHA E FISCO

Não me parece adequado que, quando se baixa um ponto no IVA, a reacção [de Luís Filipe Menezes] seja: vamos fazer uma harmonização fiscal com Espanha. Seria um erro porque em Espanha a taxa de IRC é mais alta e nós temos de ser competitivos e ter uma taxa mais baixa.

PS À DIREITA

Se o PS tivesse uma política de esquerda tudo seria mais fácil.

 

 

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