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Correio da Manhã

Política
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Correio de Senadores

Por causa das metas do défice, Jorge Coelho acha que a proposta do PSD para baixar os impostos não faz sentido. Dias Loureiro pensa que se os impostos diminuíssem o Governo seria obrigado a gastar menos.
31 de Março de 2007 às 00:00
Dias Loureiro ficou triste com o resultado Portugal-Sérvia. Jorge Coelho esperava mais, pois a Selecção tinha condições para ganhar
Dias Loureiro ficou triste com o resultado Portugal-Sérvia. Jorge Coelho esperava mais, pois a Selecção tinha condições para ganhar FOTO: Iban Milutinovic, Reuters
INSULTOS NO CDS-PP
Correio da Manhã – As confusões no CDS, os insultos, a saída de Maria José Nogueira Pinto, que consequências terá tudo isto no partido e para o próprio Paulo Portas?
Dias Loureiro – As coisas correram mal a todos: à direcção do CDS porque passaram a ideia de que a direcção tinha medo, quer de um congresso quer de eleições directas; correram mal a Paulo Portas porque a imagem que têm os seus apoiantes naquele conselho nacional não me parece a melhor em termos públicos. A saída de Nogueira Pinto de algum modo confirma tudo isto e, portanto, complica mais ainda as coisas para as partes em contenda.
Jorge Coelho – Vai uma profunda crise no CDS e na direita que representa. Estes acontecimentos são negativos e pouco explícitos do que deveria ser um partido com aquelas características ideológicas e, portanto, a coisas estão a correr mal e a saída de Maria José Nogueira Pinto é mais um passo negativo. É uma pessoa com prestígio, que já teve responsabilidades e é mais uma ruptura numa área política que pretende demonstrar que é alternativa à força partidária que governa o País.
– O CDS pode ficar definitivamente abalado?
J.C. – A imagem do partido está muito abalada, mas não só com isso. Está abalada tanto para o lado de Portas como para o de Ribeiro e Castro. Acho que o partido, como um todo, tem a sua credibilidade muito afectada e vai ser muito difícil, vai exigir muito trabalho, recuperar aquilo que tem perdido nestes últimos tempos.
D.L. – Concordo. Mas é claro que em política nunca se pode dizer que as coisas vão ser eternamente assim ou assado.
O DÉFICE E OS IMPOSTOS
– O facto de o Governo ter reduzido o défice para 3,9% justifica a proposta do PSD para se baixar os impostos?
J.C. – Para o País é muito positiva a correcção da má situação que se vinha vivendo nas finanças públicas. A prioridade de colocar o défice abaixo dos 3% é uma evidência e está a acontecer. O País pode ver reconhecidos os sacrifícios que está a fazer. É preciso não esquecer que ainda estamos em incumprimento face aos compromissos com a União Europeia. É necessário continuar o esforço, sob pena de invertermos esta política, por alguém considerar que há folgas. Nesse caso, estaríamos a estragar tudo e a voltar ao princípio. Não tem qualquer sentido de responsabilidade diminuir os impostos porque há uma diminuição do défice mais rápida. É preciso continuar o rigor para que se façam os ajustamentos definitivos. Seria um grave erro fazer essa diminuição de impostos.
D.L. – A boa notícia de que o défice foi mais baixo do que se pensava tem, no reverso, uma má notícia. Odéfice foi mais baixo porque a receita cresceu dois mil milhões e a despesa primária cresceu mil cento e tal milhões. Portanto, esta redução do défice foi conseguida não à custa da diminuição da despesa, mas à custa do aumento da receita. Portanto, é uma má notícia. Sólido era baixar o défice à custa da despesa.
J.C. – Posso contestar só uma coisa? É verdade o que está a dizer, mas é preciso não esquecer que a despesa aumentou menos do que a inflação, pela primeira vez há muitos anos. Na realidade, não houve um aumento.
D.L. – Mas Jorge, estamos a falar em relação ao que estava orçamentado. O défice tinha por base números. E não se verificaram: a despesa primária aumentou, o investimento diminuiu em cerca de 200 milhões em relação ao estimado. A má notícia é que o défice foi menor porque se cortou em investimento. E porque, tendo aumentado a despesa, apesar disso a receita cresceu mais. Com este nível de impostos o Estado não se sente obrigado a decidir uma redução drástica de despesas.
– E a proposta do PSD faz sentido?
D.L. – Impostos baixos não significam menos arrecadação. Até podem significar mais. Porque há menos fuga e menos fraude fiscal. O nível de fiscalidade, como se está a ver, incentiva o Estado a gastar mais, mal apanha uma folga do lado da receita. Era fundamental que a despesa baixasse, que houvesse impostos mais baixos e que isso fosse consistente no tempo.
A LICENCIATURA DE SÓCRATES
– O ‘Público’ lançou dúvidas sobre a licenciatura do primeiro-ministro que não é reconhecida pela Ordem dos Engenheiros e sobre cadeiras que fez na Universidade Independente...
D.L. – Acho que o primeiro-ministro já deu esclarecimentos. A imagem que tenho dele é a de um homem sério, corajoso, competente – estarei em desacordo em relação a algumas políticas, mas isso não chega para dizer que não é competente. Não me preocupa se a Ordem dos Engenheiros reconhece o título ou não. É o menos. Estou a julgar o eng. Sócrates como político, como pessoa competente, honesta e capaz.
J.C. – O meu único comentário é este: o eng. Sócrates já está habituado, porque não é a primeira vez que são lançadas campanhas sobre a sua dignidade e eu não dou nenhum comentário que ajude a esse tipo de acção.
CONSTITUIÇÃO EUROPEIA
– Nas comemorações dos 50 anos do Tratado de Roma ficou implícito que será a presidência portuguesa a promover uma conferência intergovernamental para refazer o tratado da UE. Será possível?
D.L. – Tenho muito orgulho em ser europeu. Estes 50 anos foram de paz efectiva, progresso, bem-estar. Muito disto se deve à construção europeia. Naturalmente que não é fácil, do ponto de vista institucional, arranjar quadros e soluções que simplifiquem as coisas. O processo está ferido por dois referendos que existiram. Acho que a senhora Merkel, chanceler alemã, se tem revelado uma mulher de grande lucidez e coragem e espero que este processo possa ser recuperado. Se não for resolvido na presidência portuguesa que seja resolvido, porque a UE precisa de novas normas internas para funcionar melhor. Gostava que a presidência portuguesa fosse capaz, não sei se será possível. Creio é que está a encontrar-se um consenso para haver um caminho que acabe num tratado constitucional que permita que esta união a 27 possa funcionar de um modo mais simples.
J.C. – A história da UE é um sucesso. Reúne países que há uns anos seria impensável reunir. Também para Portugal é uma história de sucesso. O tratado constitucional é um objectivo importante, muito difícil de conseguir, pois não há memória de uma presidência abrir e fechar um dossiê destes. Não me parece é correcto colocar esse objectivo como sendo central à presidência portuguesa, já que se isso não acontecer é porque foi um falhanço. Mais importante é encontrar a metodologia, o caminho a seguir.
"FALTOU AMBIÇÃO À SELECÇÃO PORTUGUESA"
– Depois de ganhar 4-0 à Bélgica, numa grande exibição de Quaresma e Ronaldo, Portugal empatou com a Sérvia. E Quaresma mal jogou. Foi falta de ambição?
D.L. – Fiquei triste no jogo com a Sérvia. Mas fiquei muito empolgado por ver como Portugal jogou contra a Bélgica e por isso estava com grande expectativa para o jogo com a Sérvia. Acho que faltou ambição à equipa portuguesa. Acho que o sistema usado... não sei muito de futebol, sou um leigo e as minhas palavras têm o valor que têm em matérias que não domino. Mas como gostava que Portugal ganhasse, acho que cedo demais ficámos satisfeitos com o resultado, um empate.
J.C. – Vi o jogo em Angola, na companhia de angolanos que torciam por Portugal, através de uma transmissão de um canal português da África do Sul. Independentemente de achar que merecíamos ganhar, acho que faltou ambição à equipa para ganhar o jogo com a Sérvia. A equipa jogou bem, mas quando sofreu o golo foi-se um pouco abaixo. Tinha, porém todas as condições para ganhar o jogo. Empatou, porque acho que se mentalizou que o empate era um bom resultado e andou ali a aguentar, quando se tivesse carregado um bocadinho mais no acelerador penso que podia ter ganho. Mas é assim o futebol.
"QUALQUER DIA ESTAMOS A SER GOVERNADOS POR TELEVOTO", DIZ COELHO
– A TV5 francesa noticiou a eleição de Salazar nos ‘Grandes Portugueses’ dizendo que havia falta de memória. Afecta a imagem do País?
J.C. – O facto de este concurso ter sido organizado nos termos em que foi criou condições para se organizarem lóbis. No fundo, considero este concurso o festival da canção deste ano. Tem a mesma metodologia: votaram 240 e tal mil pessoas sem controlo sobre quem votou. Tem o valor que tem. É negativo ser a televisão de serviço público a organizar um concurso desta natureza. Não se está a reescrever a História de Portugal nem os portugueses têm falta de memória. Ficaram cansados do tempo de Salazar e misturar uma coisa com outra é misturar alhos e bugalhos. O meu contributo foi não ver nenhum dos programas do concurso. Nem votei porque não colaboro em coisa para puxar audiências.
D.L. – É um concurso e não tem mais valor que isso. Mas não podemos menosprezar um facto. Cada vez mais hoje há televotos para tudo, como se fosse possível fazer referendos e plebiscitos televisivos diários numa democracia. Acho perigoso. A democracia não é o regime do televoto. É o regime do voto pessoal, directo e secreto e com sistema de controlo. Com a proliferação do televoto confrontamo-nos com resultados como este que agora aconteceu, em que aparentemente o maior português de sempre é o dr. Oliveira Salazar e o segundo é o dr. Álvaro Cunhal. O televoto que hoje é promovido tem um impacto que pode levar a pensar que a opinião de um País sobre um assunto é uma, quando é outra.
J.C. – Estou de acordo e é preciso fazer pedagogia porque se não qualquer dia estamos a ser governados por televoto. Não tem sentido nenhum.
JORGE COELHO
SALAZAR
"Considero este concurso o festival da canção deste ano. É negativo ser o serviço público a organizar um concurso destes. Não se está a reescrever a História nem os portugueses têm falta de memória."
IMPOSTOS
"Não tem qualquer sentido de responsabilidade diminuir os impostos [como propõe o PSD] porque há uma diminuição do défice mais rápida. É preciso continuar o rigor."
LICENCIATURA
"O eng. Sócrates já está habituado, porque não é a primeira vez que são lançadas campanhas sobre a sua dignidade [alegadas contradições no seu curso]."
CRISE NO CDS
"O CDS tem a credibilidade muito afectada e vai ser difícil e exigir muito trabalho recuperar o que tem perdido nos últimos tempos."
DIAS LOUREIRO
SALAZAR
"O televoto que hoje é promovido tem um impacto que pode levar a pensar que a opinião de um País sobre um assunto é uma, quando é outra."
IMPOSTOS
"Era fundamental que a despesa baixasse, que houvesse impostos mais baixos e que isso fosse consistente no tempo."
LICENCIATURA
"A imagem que tenho dele é a de um homem sério, corajoso, competente – estarei em desacordo em relação a algumas políticas, mas isso não chega para dizer que não é competente."
CRISE NO CDS
"As coisas correram mal a todos: à direcção do CDS (...) e a Paulo Portas porque a imagem dos seus apoiantes no CN não me parece a melhor."
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