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Correio da Manhã

Política
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Corrida à diplomacia

O acesso limitado ao primeiro emprego está a empurrar jovens licenciados para a carreira diplomática. Este ano, o número de candidatos ao concurso externo de ingresso na categoria de adido de embaixada subiu 21,8 por cento.
29 de Maio de 2006 às 00:00
Freitas do Amaral, ministro dos Negócios Estrangeiros, é o responsável pela diplomacia portuguesa
Freitas do Amaral, ministro dos Negócios Estrangeiros, é o responsável pela diplomacia portuguesa FOTO: Tiago Sousa Dias
No último ano, o número passou de 1360 candidatos a 30 vagas para 1739 a apenas 20 lugares. Os salários de início de profissão não são mais do que 650 euros, só que o desemprego, trabalho precário e a subida do número de formados, na maioria, em Relações Internacionais relançam a corrida.
A maior parte dos jovens que ambicionam um futuro na diplomacia “anda à procura do primeiro emprego – salvo os que chumbaram no concurso anterior – e, se tiverem 25 anos, já são muito velhos”. O perfil dos recém-licenciados é esboçado ao CM por Carneiro Jacinto, assessor de Imprensa do Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE), que, contudo, sublinha que não há limite de idade para concorrer. Também não se exige licenciatura em qualquer área específica. Todos os cursos são aceites. Na opinião de Carneiro Jacinto, “estes jovens concorrem a tudo o que há” disponível no mercado empregador. É uma fuga ao “desemprego”.
Mas há também quem facilmente se desiluda: “A minha filha concorreu há uns anos e quando soube que ia ganhar 650 euros [130 contos], disse logo que não queria”, recorda o assessor.
Este ano, os candidatos às 20 vagas em aberto já fizeram provas escritas de Português e Inglês e, em Junho, é a vez de realizarem os testes psicológicos. Ficam a faltar duas provas: a de conhecimento e uma entrevista profissional. Entretanto, este processo vai eliminando os menos aptos.
Segundo o MNE, a fase de selecção prolonga-se no mínimo por quatro meses, embora seja urgente contratar novos adidos. “Temos ‘generais’, ‘coronéis’ e não temos ‘soldados’”, diz a mesma fonte ministerial. O que na verdade significa que começa a faltar o pessoal de base na diplomacia portuguesa.
Segundo dados recentes do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), o número de desempregados com habilitações ao nível do ensino superior subiu, em Abril, 17,1 por cento, relativamente ao período homólogo do ano passado: são 40 470 pedidos de emprego, o que corresponde a 6,8 por cento do total.
O Instituto Nacional de Estatística revela que a taxa de desemprego dos jovens entre os 15 e 24 anos era de 15,7 por cento no primeiro trimestre deste ano – valores similares ao mesmo período de 2005.
Os salários base dos diplomatas de carreira vai desde um mínimo de 1504 euros, para um adido, até ao máximo de 4091 euros, para embaixador de topo. A estes valores acrescem suplementos, que para um diplomata no MNE, em Lisboa, corresponde a 20 por cento do ordenado. No estrangeiro recebem subsídio de representação que pode ascender aos dez mil euros e de habitação, no máximo, quatro mil euros.
SELECÇÃO RIGOROSA
As provas escritas e orais para seleccionar 20 dos 1739 candidatos a adidos são difíceis e exigem conhecimentos na área da diplomacia. Muitos dos jovens licenciados chumbam nos testes e só uma minoria volta a tentar no ano seguinte, caso abra novo concurso público.
Já se realizaram as provas escritas de língua portuguesa e de língua inglesa. No final de Junho realizam-se dois testes eliminatórios: os psicológicos e a prova escrita de conhecimento. Nesta última prova, os candidatos devem responder a questões nas áreas de relações internacionais e história diplomática, direito internacional e direito comunitário e, por fim, política económica e relações económicas internacionais. Mais tarde, segue-se a prova oral de conhecimento, cujo tema será sorteado pouco antes do seu início.
Resta responder a uma entrevista profissional – a única prova que não é eliminatória, já que o candidato precisa ter uma classificação mínima de 14 valores, numa escala de 0 a 20, para avançar pelas várias etapas de selecção.
DADOS RELEVANTES
PROPOSTA PSD
O PSD levou ao Parlamento um projecto de criar um “contrato de reconversão profissional de jovens licenciados”, com a “duração mínima de dois anos”. A formação é dada pela empresa contratante e os custos repartidos pelo interessado, Segurança Social e a empresa.
FUGA DE CÉREBROS
Um em cada cinco portugueses (19,5%) com formação superior vive fora de Portugal. As estatísticas deixam o nosso país no desconfortável 21.º lugar da ‘fuga de cérebros’ entre os países do mundo com mais de cinco milhões de habitantes.
DIPLOMATAS
Antes do concurso de 2005 para acesso à carreira diplomática, o último deverá ter-se realizado em 2000. Com as recentes movimentações diplomáticas e com a progressão na carreira, nos dois últimos anos, abriram 50 novas vagas.
FALTA DE TRABALHO AUMENTA PROCURA
DESEMPREGO*
2005
Desempregados - 412,6 mil
Jovens desempregados (15-24 anos) - 90,8 mil
Com Ensino Superior - 40,1 mil
Taxa Desemprego Jovens (15-24 anos) - 16%
2006
Desempregados - 429,7 mil
Jovens desempregados (15-24 anos) - 86 mil
Com Ensino Superior - 42,3 mil
Taxa Desemprego Jovens (15-24 anos) - 15,7%
*Fonte: INE, valores referentes ao primeiro trimestre de cada ano
ACESSO À CARREIRA DIPLOMÁTICA**
2005
Vagas - 30
Candidatos - 1360
2006
Vagas - 20
Candidatos - 1739
**Fonte: Ministério dos Negócios Estrangeiros
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