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Correio da Manhã

Política
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CRÍTICAS DE PACHECO INCOMODAM COLIGAÇÃO

A reacção de Pacheco Pereira ao discurso de Paulo Portas na ‘rentrée’ política do CDS-PP está a causar algum mal-estar na coligação.
16 de Setembro de 2003 às 00:00
Paulo Portas foi fortemente criticado por Pacheco Pereira (foto) no seu blogue
Paulo Portas foi fortemente criticado por Pacheco Pereira (foto) no seu blogue FOTO: arquivo cm
Numa altura em que os dois partidos ponderam concorrer juntos às eleições europeias do próximo ano, o tom das acusações do eurodeputado social-democrata ao líder do segundo partido do Governo está a ser interpretado como uma tentativa de “minar” o entendimento entre as duas forças políticas. Ainda mais quando se sabe que a ideia de uma coligação está longe de reunir consensos dentro do PSD.
Fonte do grupo parlamentar do PSD confessou ao Correio da Manhã que estas divergências públicas entre Paulo Portas e Pacheco Pereira não foram bem recebidas pela coligação. “Que a esquerda critique o discurso, por mais duras que as críticas sejam, é uma coisa, ser o actual cabeça de lista do PSD ao Parlamento Europeu a comparar o líder do CDS-PP ao Le Pen, é bem mais grave”, afirmou a fonte.
Tudo indica que Pacheco Pereira não deverá ser novamente o cabeça-de-lista do PSD às eleições europeias, mas ainda assim as suas afirmações – escritas nas sua página pessoal na Internet – não deixam de ser interpretadas como uma tentativa de “minar” o entendimento entre os dois partidos. “Tanto mais quando se sabe que há muita gente no PSD contra esta coligação”, acrescentou a mesma fonte, “o Pacheco Pereira acabou por dar voz a algumas opiniões de alguns sectores do PSD”.
Na origem das críticas de Pacheco Pereira estão as posições de Paulo Portas sobre a lei da imigração. O líder do CDS-PP defendeu um maior rigor nas entradas, tendo em conta a situação do desemprego e da economia. Um discurso bastante criticado, e não só pelo eurodeputado social-democrata.
Em declarações ao CM, Francisco Louçã não quis comentar a comparação entre Portas e o líder da extrema direita francesa, Le Pen, mas não deixou de considerar o discurso do líder do CDS-PP uma “aberração”. Já o socialista José Lello não hesitou em afirmar que, de facto, se tratou de uma intervenção “digna de um Le Pen”. O dirigente da Nova Democracia Carlos Abreu Amorim preferiu acusar Paulo Portas de apostar “num discurso radical e xenófobo que não faz sentido num País de emigrantes como o nosso”. Em defesa do líder do seu partido, António Pires de Lima não poupou Pacheco Pereira, considerando que o eurodeputado “parece perder neurónios quando comenta qualquer iniciativa de Paulo Portas”.
AS FARPAS DE PACHECO PEREIRA
“(...) O dr. Portas já é estranho na pátria, e então longe surge completamente bizarro. Vi-o ontem num comício, a fazer de conta que tem a voz solta, quando todos sabemos que a tem há muito tempo presa. Falou de imigração, porque de facto quase não podia falar de nada. E o que disse é puramente ideológico, uma receita política sem sentido, ou melhor, com um outro e mais perigoso sentido do que aquele que ele lhe deu.
Primeiro, falou contra quem? Contra o Governo de que faz parte. (...) Um ministro não pode dizer aquelas coisas sem estar a falar contra o Ministério da Administração Interna do Governo a que pertence. (...) E depois, o mais grave: convinha que alguém no PP, que saiba alguma coisa sobre imigração e emprego, dissesse ao dr. Portas que em Portugal, em 2003, essa correlação não tem qualquer sentido. Os trabalhadores da Marinha Grande ou as operárias da Clark's não vão trabalhar para a construção civil ou como empregadas domésticas. Os ucranianos e as cabo-verdianas, os moldavos e as são-tomenses não competem com os portugueses e as portuguesas nos empregos que têm, a não ser residualmente. Mas a catilinária contra a imigração do dr. Portas nada tem a ver com o emprego. Tem a ver com um Portugal limpo de imigrantes, e por isso acaba por resultar num discurso contra os imigrantes, tão pouco português que carece de sentido. É copiado da vulgata de Le Pen, do pior que há , e escolhido, não porque constitua qualquer preocupação dos portugueses, mesmo dos da direita, mas apenas porque o dr. Portas não pode falar de quase coisa nenhuma e ele não quer ficar calado.”
OPINIÕES
“O Dr. Pacheco Pereira tem o mérito de ser capaz de dizer o que não é politicamente correcto em relação ao dr. Paulo Portas. Aquilo foi, de facto, um discurso digno do Le Pen”. José Lello (PS)
“O dr. Pacheco Pereira é uma pessoa inteligente, mas parece que algum fenómeno de diminuição de neurónios de se apodera dele sempre que tem de comentar alguma acção do dr.Paulo Portas”. António Pires de Lima (CDS-PP)
“O Governo quer apontar os imigrantes como responsáveis pelo desemprego, mas não são. Por outro lado, fecha os olhos à imigração ilegal e fomenta a desumanidade entre os clandestinos”. Francisco Louçã (BE)
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