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Correio da Manhã

Política
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"Descolonização não foi só de Soares"

Adriano Moreira faz o balanço da vida do ex-presidente ao CM.
José Rodrigues 9 de Janeiro de 2017 às 03:00
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5 - adriano moreira
"Ele ganhou muitos combates e perdeu outros. E quando perdeu, perdeu com honra". São palavras de Adriano Moreira, antigo ministro do Ultramar, ex-líder do CDS e grande amigo de Mário Soares, a quem não poupa elogios e enaltece três das suas qualidades: "Firmeza de convicções, fidelidade aos amigos e amor pela família".

Aos 94 anos, Adriano Moreira viu partir com tristeza o seu "amigo" de longa data, com quem partilhou momentos inesquecíveis. Diz que Mário Soares tem o seu lugar na história e compara-o, sem hesitar, aos grandes estadistas do pós-Segunda Guerra - os primeiros-ministros da França, da Alemanha, da Itália -, aqueles que "tinham alguma santidade, que herdaram uma Europa complemente destruída, que poderiam ter criado um sentimento de retaliação e não o fizeram".

Em entrevista ao CM, Adriano Moreira fala do legado político do antigo Presidente e questiona se Portugal e a Europa, hoje em crise, estão à altura do espírito europeísta: "Eu acho que isso foi uma das angústias com que ele morreu. Neste momento, a Europa vive como se não tivesse circunstância. As ameaças vêm de todos os lados, o Mediterrâneo está num cemitério, a Síria é o que sabemos, as migrações estão a provocar não só o afastamento dos eleitores mas também a unidade dos países. E se se compara isto com o sonho europeísta, há de uma pessoa morrer sem angústia?" Para Adriano Moreira, "a Europa anda à procura das vozes encantatórias que se apagaram".

O professor elege como factos mais marcantes da ação de Mário Soares, o fim da guerra colonial, embora admita que a descolonização "mantém na sociedade portuguesa aquilo que é a crítica mais viva". Lembra que largas centenas de portugueses "tiveram de regressar ao país, perderam a sua vida, o seu futuro, e isso será sempre um ponto que vai suscitar divisões". Salvaguarda, contudo, que a questão tem de ser analisada pelos historiadores.

"Eu julgo que a responsabilidade é de muita gente. E já me perguntaram se eu não estava arrependido de alguma coisa e eu respondi que a minha geração tem de meditar se fez tudo o que podia ter feito para que as coisas fossem menos gravosas para o povo português".
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